Questão 105 — ENEM 2014 (Linguagens)

TEXTO I

João Guedes, um dos assíduos frequentadores do boliche do capitão, mudara-se da campanha havia três anos. Três anos de pobreza na cidade bastaram para o degradar. Ao morrer, não tinha um vintém nos bolsos e fazia dois meses que saíra da cadeia, onde estivera preso por roubo de ovelha.

A história de sua desgraça se confunde com a da maioria dos que povoam a aldeia de Boa Ventura, uma cidadezinha distante, triste e precocemente envelhecida, situada nos confins da fronteira do Brasil com o Uruguai.

MARTINS, C. Porteira fechada. Porto Alegre: Movimento, 2001 (fragmento).

TEXTO II

Comecei a procurar emprego, já topando o que desse e viesse, menos complicação com os homens, mas não tava fácil. Fui na feira, fui nos bancos de sangue, fui nesses lugares que sempre dão para descolar algum, fui de porta em porta me oferecendo de faxineiro, mas tava todo mundo escabreado pedindo referências, e referências eu só tinha do diretor do presídio.

FONSECA, R. Feliz Ano Novo. São Paulo: Cia. das Letras, 1989 (fragmento).

A oposição entre campo e cidade esteve entre as temáticas tradicionais da literatura brasileira. Nos fragmentos dos dois autores contemporâneos, esse embate incorpora um elemento novo: a questão da violência e do desemprego. As narrativas apresentam confluência, pois nelas o(a)

Resolução

A questão avalia a habilidade de leitura comparada de textos literários e a identificação de temáticas sociais na literatura brasileira contemporânea.

Ambos os fragmentos constroem personagens que partem de situações de pobreza (ligadas ao campo ou à marginalidade social) e, ao se depararem com a falta de oportunidades no ambiente urbano, acabam envolvidas com a criminalidade. Em Martins, João Guedes abandona o campo, vive três anos de pobreza na cidade e termina preso por roubo. Em Fonseca, o narrador, egresso do presídio, busca qualquer trabalho e encontra portas fechadas — tendo apenas o diretor de presídio como referência. Os dois textos estabelecem, portanto, uma confluência: a exclusão socioeconômica — que une a penúria do campo à falta de oportunidades na cidade — como caminho que conduz à criminalidade.

As demais alternativas não se sustentam na leitura dos textos: a ideia de criminalidade como algo inerente ao ser humano ignora o caráter social e circunstancial apresentado; o estímulo das grandes cidades à violência não é o foco central; a falta de escolaridade não é mencionada em nenhum dos fragmentos; e não há evidências de complacência das leis ou inércia das personagens — pelo contrário, o narrador do Texto II demonstra ativamente buscar emprego.

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