Vida obscura
Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
ó ser humilde entre os humildes seres,
embriagado, tonto de prazeres,
o mundo para ti foi negro e duro.
Atravessaste no silêncio escuro
a vida presa a trágicos deveres
e chegaste ao saber de altos saberes
tornando-te mais simples e mais puro.
Ninguém te viu o sentimento inquieto,
magoado, oculto e aterrador, secreto,
que o coração te apunhalou no mundo,
Mas eu que sempre te segui os passos
sei que cruz infernal prendeu-te os braços
e o teu suspiro como foi profundo!
SOUSA, C. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1961.
Com uma obra densa e expressiva no Simbolismo brasileiro, Cruz e Sousa transpôs para seu lirismo uma sensibilidade em conflito com a realidade vivenciada. No soneto, essa percepção traduz-se em
O soneto Vida Obscura, de Cruz e Sousa, retrata uma existência marcada pelo silêncio e pelo sofrimento interior não expresso. O conceito avaliado é a leitura e interpretação do texto literário em articulação com o contexto biográfico e estético do Simbolismo brasileiro.
Cruz e Sousa foi um poeta negro que viveu sob os efeitos do preconceito racial no Brasil do século XIX. Esse contexto se reflete no poema: o sujeito lírico dirige-se a alguém cujo sofrimento passou despercebido — "Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro", "Ninguém te viu o sentimento inquieto, magoado, oculto". O sofrimento é tácito, ou seja, calado, não declarado. A imagem da "cruz infernal" que prende os braços sugere um peso externo, imposto — uma limitação que não vem de dentro, mas de forças sociais que aprisionam o indivíduo. Isso aponta diretamente para o sofrimento silencioso diante da discriminação.
As demais alternativas não se sustentam no texto: a referência a "embriagado, tonto de prazeres" é metafórica e não indica tendência ao vício; os "trágicos deveres" aludem ao peso da vida, não a tarefas degradantes específicas; não há no poema qualquer referência a frustração amorosa ou atividade intelectual; e, embora haja imagens religiosas ("cruz infernal"), elas funcionam como metáfora do sofrimento, não como expressão de vocação religiosa.
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