Psicologia de um vencido
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
ANJOS, A. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
A poesia de Augusto dos Anjos revela aspectos de uma literatura de transição designada como pré-modernista. Com relação à poética e à abordagem temática presentes no soneto, identificam-se marcas dessa literatura de transição, como
O conceito avaliado é o Pré-modernismo como literatura de transição, que combina elementos estéticos do passado com inovações expressivas.
A alternativa correta reconhece que Augusto dos Anjos preserva a forma parnasiana — o soneto de 14 versos, a metrificação rigorosa e o esquema de rimas — ao mesmo tempo em que absorve o tom sombrio e a angústia existencial do Simbolismo. A isso se soma uma inovação marcante: o uso de vocabulário científico (epigênesis, carbono, amoníaco, frialdade inorgânica) para expressar um desconcerto existencial profundo, algo que vai além de qualquer uma das escolas anteriores. É exatamente essa fusão — conservação das formas clássicas + renovação expressiva + pessimismo radical — que define a transição pré-modernista.
As demais alternativas são inadequadas porque: uma delas afirma erroneamente que a estrutura formal do soneto e as rimas antecipam o Modernismo, quando na verdade o Modernismo rompeu com essas convenções; outra restringe o poema a um "resgate do Simbolismo", ignorando os elementos parnasianos e científicos; uma terceira limita a análise apenas ao cientificismo e ao Naturalismo, sem considerar a dimensão formal e existencial do poema; e a última descreve de forma vaga uma poesia "descritiva e filosófica" sem identificar as marcas concretas da transição estética.
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