Questão 116 — ENEM 2014 (Linguagens)

Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,

Monstro de escuridão e rutilância,

Sofro, desde a epigênesis da infância,

A influência má dos signos do zodíaco.

Profundíssimamente hipocondríaco,

Este ambiente me causa repugnância...

Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia

Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —

Que o sangue podre das carnificinas

Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,

E há de deixar-me apenas os cabelos,

Na frialdade inorgânica da terra!

ANJOS, A. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

A poesia de Augusto dos Anjos revela aspectos de uma literatura de transição designada como pré-modernista. Com relação à poética e à abordagem temática presentes no soneto, identificam-se marcas dessa literatura de transição, como

Resolução

O conceito avaliado é o Pré-modernismo como literatura de transição, que combina elementos estéticos do passado com inovações expressivas.

A alternativa correta reconhece que Augusto dos Anjos preserva a forma parnasiana — o soneto de 14 versos, a metrificação rigorosa e o esquema de rimas — ao mesmo tempo em que absorve o tom sombrio e a angústia existencial do Simbolismo. A isso se soma uma inovação marcante: o uso de vocabulário científico (epigênesis, carbono, amoníaco, frialdade inorgânica) para expressar um desconcerto existencial profundo, algo que vai além de qualquer uma das escolas anteriores. É exatamente essa fusão — conservação das formas clássicas + renovação expressiva + pessimismo radical — que define a transição pré-modernista.

As demais alternativas são inadequadas porque: uma delas afirma erroneamente que a estrutura formal do soneto e as rimas antecipam o Modernismo, quando na verdade o Modernismo rompeu com essas convenções; outra restringe o poema a um "resgate do Simbolismo", ignorando os elementos parnasianos e científicos; uma terceira limita a análise apenas ao cientificismo e ao Naturalismo, sem considerar a dimensão formal e existencial do poema; e a última descreve de forma vaga uma poesia "descritiva e filosófica" sem identificar as marcas concretas da transição estética.

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