Questão 127 — ENEM 2014 (Linguagens)

Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Cotrim, a quem não souber que ele possuía um caráter ferozmente honrado. Eu mesmo fui injusto com ele durante os anos que se seguiram ao inventário de meu pai. Reconheço que era um modelo. Arguíam-no de avareza, e cuido que tinham razão; mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude, e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que o déficit. Como era muito seco de maneiras, tinha inimigos que chegavam a acusá-lo de bárbaro. O único fato alegado neste particular era o de mandar com frequência escravos ao calabouço, donde eles desciam a escorrer sangue; mas, além de que ele só mandava os perversos e os fujões, ocorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria, e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais. A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu amor aos filhos, e na dor que padeceu quando morreu Sara, dali a alguns meses; prova irrefutável, acho eu, e não única. Era tesoureiro de uma confraria, e irmão de várias irmandades, e até irmão remido de uma destas, o que não se coaduna muito com a reputação da avareza; verdade é que o benefício não caíra no chão: a irmandade (de que ele fora juiz) mandara-lhe tirar o retrato a óleo.

ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992.

Obra que inaugura o Realismo na literatura brasileira, Memórias póstumas de Brás Cubas condensa uma expressividade que caracterizaria o estilo machadiano: a ironia. Descrevendo a moral de seu cunhado, Cotrim, o narrador-personagem Brás Cubas refina a percepção irônica ao

Resolução

Esta questão avalia a compreensão da ironia machadiana, recurso central no Realismo de Machado de Assis. O narrador-personagem Brás Cubas constrói um elogio aparente de Cotrim, mas as palavras escolhidas para defendê-lo acabam por denunciá-lo de forma ainda mais contundente.

A alternativa correta é aquela que aponta o momento em que o narrador justifica a brutalidade de Cotrim com os escravos — que eram enviados ao calabouço e 'desciam a escorrer sangue' — atribuindo esse comportamento ao efeito de relações sociais do negócio de tráfico. Aqui reside a ironia refinada: ao tentar absolver o cunhado, Brás Cubas revela e normaliza a crueldade da escravidão com uma lógica perversa, como se torturar pessoas fosse apenas um hábito profissional compreensível. A defesa torna-se, na verdade, uma acusação velada tanto ao personagem quanto à sociedade que o sustenta.

As demais alternativas não capturam a ironia estrutural do texto. A sugestão de que o narrador acusa o cunhado para se queixar da herança distorce o trecho, que reconhece a injustiça do próprio narrador. Apontar os 'sentimentos pios' como ironia ignora que esse argumento é apresentado como prova legítima pelo narrador. Dizer que o texto menospreza Cotrim por participar de irmandades inverte o sentido: o fato é usado como argumento a favor do personagem. Por fim, a ideia de que o retrato a óleo revela vaidade egocêntrica é uma leitura superficial; o narrador o menciona como reconhecimento recebido, não como crítica direta ao caráter.

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