TEXTO I
Ditado popular é uma frase sentenciosa, concisa, de verdade comprovada, baseada na secular experiência do povo, exposta de forma poética, contendo uma norma de conduta ou qualquer outro ensinamento.
WEITZEL, A. H. Folclore literário e linguístico. Juiz de Fora: Esdeva, 1984 (fragmento).
TEXTO II
Rindo brincalhona, dando-lhe tapinhas nas costas, prima Constança disse isto, dorme no assunto, ouça o travesseiro, não tem melhor conselheiro.
Enquanto prima Biela dormia no assunto, toda a casa se alvoroçava.
[Prima Constança] ia rezar, pedir a Deus para iluminar prima Biela. Mas ia também tomar suas providências. Casamento e mortalha, no céu se talha. Deus escreve direito por linhas tortas. O que for soará. Dizia os ditados todos, procurando interpretar os desígnios de Deus, transformar os seus desejos nos desígnios de Deus. Se achava um instrumento de Deus.
DOURADO, A. Uma vida em segredo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990 (fragmento).
O uso que prima Constança faz dos ditados populares, no Texto II, constitui uma maneira de utilizar o tipo de saber definido no Texto I, porque
A questão avalia a habilidade de interpretação textual e intertextualidade, pedindo que o leitor relacione a definição teórica de ditado popular (Texto I) com o uso concreto que a personagem faz desse recurso (Texto II).
A alternativa correta indica que prima Constança aciona os ditados para justificar suas ações. O trecho central para essa interpretação é: "procurando interpretar os desígnios de Deus, transformar os seus desejos nos desígnios de Deus". Ou seja, a personagem já tinha suas intenções formadas e usou os ditados como instrumento retórico para legitimar o que ela já queria fazer — não para descobrir uma verdade, resolver um dilema ou seguir uma orientação, mas para justificar sua própria vontade.
As demais alternativas são inadequadas porque: citar por hábito seria um uso mecânico e inconsciente, sem a função estratégica evidente no texto; aceitar como verdade absoluta não explica o uso instrumental descrito; solucionar um problema pressuporia que os ditados orientassem uma decisão ainda em aberto, o que não ocorre — Constança já agiu; e considerar os ditados como orientação divina confunde o meio com o fim, pois ela invoca Deus para encobrir seus próprios desejos, e não para realmente se guiar por uma revelação.
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