Questão 4 — ENEM 2014 (Humanas)

É o caráter radical do que se procura que exige a radicalização do próprio processo de busca. Se todo o espaço for ocupado pela dúvida, qualquer certeza que aparecer a partir daí terá sido de alguma forma gerada pela própria dúvida, e não será seguramente nenhuma daquelas que foram anteriormente varridas por essa mesma dúvida.

SILVA, F. L. Descartes: a metafísica da modernidade.

São Paulo: Moderna, 2001 (adaptado).

Apesar de questionar os conceitos da tradição, a dúvida radical da filosofia cartesiana tem caráter positivo por contribuir para o(a)

Resolução

A questão avalia a compreensão do método da dúvida cartesiana, proposto por René Descartes como ponto de partida para a filosofia moderna. A dúvida radical não é um ceticismo definitivo, mas um instrumento metodológico: ao questionar tudo radicalmente, Descartes buscava encontrar algo que resistisse à própria dúvida.

O trecho destaca exatamente esse movimento: se a dúvida ocupa todo o espaço, qualquer certeza que emergir daí não poderá ser abalada, pois terá sido gerada pelo próprio processo dubitativo. Descartes encontra esse ponto inabalável no cogito ergo sum — "penso, logo existo" —, uma verdade que não pode ser negada nem mesmo por quem duvida, pois o ato de duvidar já pressupõe um ser pensante.

Por isso, o caráter positivo da dúvida radical está no surgimento de um conhecimento inabalável: ela destrói as certezas frágeis herdadas da tradição para fundar um saber seguro e indiscutível.

As demais alternativas contradizem o projeto cartesiano: Descartes rompe com os antigos juízos e com o pensamento clássico, em vez de recuperá-los ou exaltá-los. Tampouco dissolve o saber científico — pelo contrário, busca fundamentá-lo racionalmente. E o fortalecimento de preconceitos religiosos é o oposto do racionalismo crítico que caracteriza sua filosofia.

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