Questão 106 — ENEM 2015 (Linguagens)

As narrativas indígenas se sustentam e se perpetuam por uma tradição de transmissão oral (sejam as histórias verdadeiras dos seus antepassados, dos fatos e guerras recentes ou antigos; sejam as histórias de ficção, como aquelas da onça e do macaco). De fato, as comunidades indígenas nas chamadas “terras baixas da América do Sul” (o que exclui as montanhas dos Andes, por exemplo) não desenvolveram sistemas de escrita como os que conhecemos, sejam alfabéticos (como a escrita do português), sejam ideogramáticos (como a escrita dos chineses) ou outros. Somente nas sociedades indígenas com estratificação social (ou seja, já divididas em classes), como foram os astecas e os maias, é que surgiu algum tipo de escrita. A história da escrita parece mesmo mostrar claramente isso: que ela surge e se desenvolve – em qualquer das formas – apenas em sociedades estratificadas (sumérios, egípcios, chineses, gregos, etc.). O fato é que os povos indígenas no Brasil, por exemplo, não empregavam um sistema de escrita, mas garantiram a conservação e continuidade dos conhecimentos acumulados, das histórias passadas e, também, das narrativas que sua tradição criou, através da transmissão oral. Todas as tecnologias indígenas se transmitiram e se desenvolveram assim. E não foram poucas: por exemplo, foram os índios que domesticaram plantas silvestres e, muitas vezes, venenosas, criando o milho, a mandioca (ou macaxeira), o amendoim, as morangas e muitas outras mais (e também as desenvolveram muito; por exemplo, somente do milho criaram cerca de 250 variedades diferentes em toda a América).

D’Angelis, W. R. Histórias dos índios lá em casa: narrativas indígenas e tradição oral popular no Brasil. Disponível em: www.portalkaingang.org. Acesso em: 5 dez. 2012.

A escrita e a oralidade, nas diversas culturas, cumprem diferentes objetivos. O fragmento aponta que, nas sociedades indígenas brasileiras, a oralidade possibilitou

Resolução

O texto discute a relação entre tradição oral e preservação cultural nas sociedades indígenas brasileiras. O conceito central avaliado é a função da oralidade como mecanismo de transmissão do conhecimento em culturas que não desenvolveram sistemas de escrita.

O fragmento afirma explicitamente que, mesmo sem escrita, os povos indígenas "garantiram a conservação e continuidade dos conhecimentos acumulados, das histórias passadas e, também, das narrativas que sua tradição criou, através da transmissão oral". Isso demonstra que a oralidade cumpriu o papel de preservar e transmitir saberes e memória cultural — exatamente o que a alternativa correta afirma.

As demais opções contradizem ou distorcem o texto. A ideia de valorização de grupos detentores de saberes não é mencionada. A manutenção de modelos estratificados é o oposto do que o texto descreve, pois as sociedades indígenas brasileiras são apresentadas justamente como não estratificadas. A restrição do conhecimento a certas comunidades contradiz diretamente a ideia de transmissão e continuidade. Por fim, a legitimação da fala como meio de comunicação é uma conclusão muito genérica e tangencial, que não representa o ponto central desenvolvido no texto.

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