Exmº Sr. Governador:
Trago a V. Exa. um resumo dos trabalhos realizados pela Prefeitura de Palmeira dos Índios em 1928.
[…]
ADMINISTRAÇÃO
Relativamente à quantia orçada, os telegramas custaram pouco. De ordinário vai para eles dinheiro considerável. Não há vereda aberta pelos matutos que prefeitura do interior não ponha no arame, proclamando que a coisa foi feita por ela; comunicam-se as datas históricas ao Governo do Estado, que não precisa disso; todos os acontecimentos políticos são badalados. Porque se derrubou a Bastilha – um telegrama; porque se deitou pedra na rua – um telegrama; porque o deputado F. esticou a canela – um telegrama.
Palmeira dos Índios, 10 de janeiro de 1929.
GRACILIANO RAMOS
RAMOS, G. Viventes das Alagoas. São Paulo: Martins Fontes, 1962.
O relatório traz a assinatura de Graciliano Ramos, na época, prefeito de Palmeira dos Índios, e é destinado ao governo do estado de Alagoas.
De natureza oficial, o texto chama a atenção por contrariar a norma prevista para esse gênero, pois o autor
A questão avalia a competência de reconhecer as características dos gêneros textuais, especialmente os de natureza oficial, e identificar quando um texto as subverte.
Relatórios destinados ao governo são gêneros formais que exigem linguagem objetiva, impessoal e neutra. O que torna o texto de Graciliano Ramos surpreendente é exatamente o oposto: o autor usa linguagem subjetiva e carregada de emoção — especialmente ironia e sarcasmo. Expressões como "matutos", "ponha no arame", "badalados" e "esticou a canela" são coloquiais e afastam o texto do registro esperado para um documento oficial. A sequência irônica "porque se derrubou a Bastilha – um telegrama; porque se deitou pedra na rua – um telegrama; porque o deputado F. esticou a canela – um telegrama" revela claramente o posicionamento pessoal e emocional do autor, o que contradiz a norma do gênero.
As demais alternativas não se sustentam: a pontuação é usada para criar ritmo e ironia, não em excesso sem propósito; as expressões são coloquiais, não arcaicas; a primeira pessoa sozinha não seria a ruptura mais relevante; e o texto foge completamente do vocabulário técnico, usando linguagem popular.
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