Questão 124 — ENEM 2015 (Linguagens)

Palavras jogadas fora

Quando criança, convivia no interior de São Paulo com o curioso verbo pinchar e ainda o ouço por lá esporadicamente. O sentido da palavra é o de “jogar fora” (pincha fora essa porcaria) ou “mandar embora” (pincha esse fulano daqui). Teria sido uma das muitas palavras que ouvi menos na capital do estado e, por conseguinte, deixei de usar. Quando indago às pessoas se conhecem esse verbo, comumente escuto respostas como “minha avó fala isso”. Aparentemente, para muitos falantes, esse verbo é algo do passado, que deixará de existir tão logo essa geração antiga morrer. As palavras são, em sua grande maioria, resultados de uma tradição: elas já estavam lá antes de nascermos. “Tradição”, etimologicamente, é o ato de entregar, de passar adiante, de transmitir (sobretudo valores culturais). O rompimento da tradição de uma palavra equivale à sua extinção. A gramática normativa muitas vezes colabora criando preconceitos, mas o fator mais forte que motiva os falantes a extinguirem uma palavra é associar a palavra, influenciados direta ou indiretamente pela visão normativa, a um grupo que julga não ser o seu. O pinchar, associado ao ambiente rural, onde há pouca escolaridade e refinamento citadino, está fadado à extinção?
É louvável que nos preocupemos com a extinção de ararinhas-azuis ou dos micos-leão-dourados, mas a extinção de uma palavra não promove nenhuma comoção, como não nos comovemos com a extinção de insetos, a não ser dos extraordinariamente belos. Pelo contrário, muitas vezes a extinção das palavras é incentivada.

VIARO, M. E. Língua Portuguesa, n. 77, mar. 2012 (adaptado).

A discussão empreendida sobre o (des)uso do verbo “pinchar” nos traz uma reflexão sobre a linguagem e seus usos, a partir da qual compreende-se que

Resolução

Esta questão avalia a compreensão de variação linguística e preconceito linguístico a partir de um texto de divulgação científica sobre o verbo pinchar.

O autor argumenta que o fator mais determinante para o desuso de uma palavra não é simplesmente o tempo, mas sim a associação que os falantes fazem entre essa palavra e um grupo social que eles não desejam representar. No caso de pinchar, a palavra é ligada ao ambiente rural, à baixa escolaridade e à falta de "refinamento citadino" — características vistas negativamente pela visão normativa dominante. Esse mecanismo de rejeição é, portanto, de natureza sociocultural e preconceituosa, o que confirma a alternativa correta.

As demais alternativas contradizem o texto: o autor não sugere que palavras esquecidas devam ser removidas dos dicionários — pelo contrário, lamenta o desaparecimento delas. A comparação com animais em extinção serve para criticar a indiferença com que tratamos o desaparecimento de palavras, não para hierarquizar as preocupações. O texto também mostra que as gerações rompem a tradição de perpetuar palavras, e não a mantêm. Por fim, não há no texto nenhuma defesa de que o mundo contemporâneo exige inovação vocabular.

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