A língua de que usam, por toda a costa, carece de três letras; convém a saber, não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei, e dessa maneira vivem desordenadamente, sem terem além disto conta, nem peso, nem medida.
GÂNDAVO, P. M. A primeira história do Brasil: história da província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2004 (adaptado)
A observação do cronista português Pero de Magalhães de Gândavo, em 1576, sobre a ausência das letras F, L e R na língua mencionada, demonstra a
A questão avalia a capacidade de interpretar fontes históricas coloniais sob a perspectiva do etnocentrismo — o julgamento de uma cultura a partir dos valores e referenciais de outra.
Gândavo observa que a língua indígena não possui as letras F, L e R e, a partir disso, conclui que os indígenas não têm Fé, Lei nem Rei. Ele parte de uma coincidência fonética para afirmar a ausência de instituições que eram centrais na sociedade europeia cristã do século XVI. Ao fazer isso, o cronista revela que não compreende que a sociedade indígena possuía suas próprias formas de organização, espiritualidade e autoridade, simplesmente porque eram diferentes das europeias. Essa é a essência da alternativa correta: a incapacidade do olhar português de reconhecer os valores socioculturais dos povos nativos.
As demais alternativas são inadequadas porque o texto não trata de dominação imposta, de superioridade explicitamente declarada como argumento central, de simplicidade organizacional como tema principal, nem da dificuldade de aprender a língua — o cronista a descreve, não relata dificuldade em aprendê-la.
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