Galinha cega
O dono correu atrás de sua branquinha, agarrou-a, lhe examinou os olhos. Estavam direitinhos, graças a Deus, e muito pretos. Soltou-a no terreiro e lhe atirou mais milho. A galinha continuou a bicar o chão desorientada. Atirou ainda mais, com paciência, até que ela se fartasse. Mas não conseguiu com o gasto de milho, de que as outras se aproveitaram, atinar com a origem daquela desorientação. Que é que seria aquilo, meu Deus do céu? Se fosse efeito de uma pedrada na cabeça e se soubesse quem havia mandado a pedra, algum moleque da vizinhança, aí… Nem por sombra imaginou que era a cegueira irremediável que principiava.
Também a galinha, coitada, não compreendia nada, absolutamente nada daquilo. Por que não vinham mais os dias luminosos em que procurava a sombra das pitangueiras? Sentia ainda o calor do sol, mas tudo quase sempre tão escuro. Quase que já não sabia onde é que estava a luz, onde é que estava a sombra.
GUIMARAENS, J. A. Contos e novelas. Rio de Janeiro: Imago, 1976 (fragmento).
Ao apresentar uma cena em que um menino atira milho às galinhas e observa com atenção uma delas, o narrador explora um recurso que conduz a uma expressividade fundamentada na
O recurso expressivo central do fragmento é a alternância de focos narrativos, em que o narrador transita entre o ponto de vista do dono e o ponto de vista da própria galinha, ambos tratados com envolvimento emocional.
Na primeira parte, acompanhamos as ações e dúvidas do dono: ele examina os olhos da galinha, atira milho, especula sobre a causa da desorientação. Na segunda parte, o narrador migra para a perspectiva da galinha — "Também a galinha, coitada, não compreendia nada", "Por que não vinham mais os dias luminosos..." — antropomorfizando o animal e revelando sua experiência subjetiva de perda da visão. Esse movimento entre consciências distintas é afetivamente incorporado: a expressão "coitada" e o tom de compaixão revelam que o narrador não é neutro, mas se aproxima carinhosamente de ambos os seres.
As demais alternativas descrevem elementos presentes no texto (o ambiente rural, o quintal), mas nenhum deles constitui o principal mecanismo de expressividade explorado pelo autor. A confusão temporal e a fragmentação do conflito tampouco se sustentam como recursos centrais neste trecho.
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