Questão 115 — ENEM 2016 (Linguagens)

A partida de trem

Marcava seis horas da manhã. Angela Pralini pagou o táxi e pegou sua pequena valise. Dona Maria Rita de Alvarenga Chagas Souza Melo desceu do Opala da filha e encaminharam-se para os trilhos. A velha bem-vestida e com joias. Das rugas que a disfarçavam saía a forma pura de um nariz perdido na idade, e de uma boca que outrora devia ter sido cheia e sensível. Mas que importa? Chega-se a um certo ponto — e o que foi não importa. Começa uma nova raça. Uma velha não pode comunicar-se. Recebeu o beijo gelado de sua filha que foi embora antes do trem partir. Ajudara-a antes a subir no vagão. Sem que neste houvesse um centro, ela se colocara do lado. Quando a locomotiva se pôs em movimento, surpreendeu-se um pouco: não esperava que o trem seguisse nessa direção e sentara-se de costas para o caminho.
Angela Pralini percebeu-lhe o movimento e perguntou:
— A senhora deseja trocar de lugar comigo?
Dona Maria Rita se espantou com a delicadeza, disse que não, obrigada, para ela dava no mesmo. Mas parecia ter-se perturbado. Passou a mão sobre o camafeu filigranado de ouro espetado no peito, passou a mão pelo broche. Seca. Ofendida? Perguntou afinal a Angela Pralini:
— É por causa de mim que a senhorita deseja trocar de lugar?

LISPECTOR, C. Onde estivestes de noite. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980 (fragmento).

A descoberta de experiências emocionais com base no Cotidiano é recorrente na obra de Clarice Lispector. No fragmento, o narrador enfatiza o(a)

Resolução

O fragmento de Clarice Lispector explora a experiência interior da personagem idosa, revelando seu profundo sentimento de solidão intensificado pelo processo de envelhecimento.

Vários elementos do texto constroem esse sentido: a filha de Dona Maria Rita vai embora antes mesmo do trem partir, deixando-lhe apenas um beijo gelado — gesto que expressa distância afetiva, não proximidade. O narrador afirma que "uma velha não pode comunicar-se" e que o envelhecimento cria uma "nova raça", separada dos demais, o que evidencia o isolamento existencial da personagem.

O clímax emocional do trecho confirma esse sentimento: ao receber uma oferta gentil de troca de lugar — um gesto simples de cortesia —, Dona Maria Rita se perturba e pergunta se a solicitação é motivada por causa dela. Essa reação revela uma consciência dolorosa de ser um estorvo, de ocupar um lugar indesejado no mundo, sentimento típico de quem vive a solidão do envelhecimento.

As demais alternativas não são sustentadas pelo texto: a vaidade e a condição social da personagem são mencionadas apenas como descrição, não como foco narrativo; o espaço do trem não apaga diferenças sociais; a incompatibilidade geracional não é o centro da cena; e o constrangimento presente é consequência da solidão, não a causa principal enfatizada pelo narrador.

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