De domingo
– Outrossim…
– O quê?
– O que o quê?
– O que você disse.
– Outrossim?
– É.
– O que é que tem?
– Nada. Só achei engraçado.
– Não vejo a graça.
– Você vai concordar que não é uma palavra de todos os dias.
– Ah, não é. Aliás, eu só uso domingo.
– Se bem que parece mais uma palavra de segunda-feira.
– Não. Palavra de segunda-feira é “óbice”.
– “Ônus”.
– “Ônus” também. “Desiderato”. “Resquício”.
– “Resquício” é de domingo.
– Não, não. Segunda. No máximo terça.
– Mas “outrossim”, francamente…
– Qual o problema?
– Retira o “outrossim”.
– Não retiro. É uma ótima palavra. Aliás é uma palavra difícil de usar. Não é qualquer um
que usa “outrossim”.
VERISSIMO, L. F. Comédias da vida privada. Porto Alegre: L&PM, 1996 (fragmento).
No texto, há uma discussão sobre o uso de algumas palavras da língua portuguesa. Esse uso promove o(a)
O texto de Luis Fernando Verissimo apresenta um diálogo aparentemente banal, mas construído com precisão cômica. O efeito principal produzido pela seleção vocabular é o tom humorístico, gerado pelo contraste entre o registro formal e erudito das palavras discutidas — como outrossim, óbice, desiderato e resquício — e o contexto extremamente informal e cotidiano em que elas são mencionadas.
A graça reside exatamente na incongruência: dois interlocutores conversam de maneira descontraída sobre quais dias da semana cada palavra rebuscada "pertence", como se fossem objetos de uso doméstico. Essa ruptura de expectativa entre o vocabulário solene e a situação prosaica é o mecanismo central do humor de Verissimo.
As demais alternativas não se sustentam: a menção aos dias da semana não marca tempo narrativo, mas serve como recurso cômico; não há marcas de regionalismo, pois as palavras são do registro formal padrão; os interlocutores não se distanciam — pelo contrário, debatem com cumplicidade; e nenhum dos dois desconhece as palavras, o que afasta a ideia de inadequação vocabular.
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