Questão 129 — ENEM 2016 (Linguagens)

TEXTO I

BACON, F. Três estudos para um autorretrato. Óleo sobre tela, 37,5 x 31,8 cm (cada), 1974.

Disponível em: www.metmuseum.org. Acesso em: 30 maio 2016.

TEXTO II

Tenho um rosto lacerado por rugas secas e profundas, sulcos na pele. Não é um rosto desfeito, como acontece com pessoas de traços delicados, o contorno é o mesmo mas a matéria foi destruída. Tenho um rosto destruído.

DURAS, M. O amante. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

Na imagem e no texto do romance de Marguerite Duras, os dois autorretratos apontam para o modo de representação da subjetividade moderna. Na pintura e na literatura modernas, o rosto humano deforma-se, destrói-se ou fragmenta-se em razão

Resolução

A questão avalia a compreensão do modernismo nas artes e a relação entre linguagens artísticas (pintura e literatura) na representação da subjetividade humana no século XX.

O tríptico de Francis Bacon apresenta rostos distorcidos, fragmentados e irreconhecíveis — traço característico da pintura expressionista e moderna, que rompe com a representação realista do ser humano. Da mesma forma, Marguerite Duras descreve seu próprio rosto como destruído, com sulcos profundos que arruinaram a matéria, mesmo mantendo o contorno.

A alternativa correta aponta que essa deformação e fragmentação do rosto humano na arte e na literatura modernas decorre de dois fatores históricos e culturais fundamentais: as grandes catástrofes do século XX (guerras mundiais, genocídios, crises políticas) que abalaram a visão otimista de mundo e de humanidade; e a descoberta da realidade psíquica pela psicanálise (Freud), que revelou que o ser humano não é transparente nem coerente — há forças internas, inconscientes, que fragmentam a identidade e o rosto que apresentamos ao mundo.

As demais alternativas são incorretas: a estética do grotesco não é a causa principal nem se limita ao romantismo; a fragmentação moderna não é uma oposição à revolução da arte moderna, mas parte dela; o artista moderno não se opõe à negação do passado de forma genérica; e a intenção não é criar obras independentes da história pessoal — ao contrário, Duras faz justamente um autorretrato profundamente pessoal.

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