Questão 135 — ENEM 2016 (Linguagens)

Você pode não acreditar

Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que os leiteiros deixavam as garrafinhas de leite do lado de fora das casas, seja ao pé da porta, seja na janela.
A gente ia de uniforme azul e branco para o grupo, de manhãzinha, passava pelas casas e não ocorria que alguém pudesse roubar aquilo.
Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que os padeiros deixavam o pão na soleira da porta ou na janela que dava para a rua. A gente passava e via aquilo como uma coisa normal.
Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que você saía à noite para namorar e voltava andando pelas ruas da cidade, caminhando displicentemente, sentindo cheiro de jasmim e de alecrim, sem olhar para trás, sem temer as sombras.
Você pode não acreditar: houve um tempo em que as pessoas se visitavam airosamente. Chegavam no meio da tarde ou à noite, Contavam casos, tomavam café, falavam da saúde, tricotavam sobre a vida alheia e voltavam de bonde às suas casas.
Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que o namorado primeiro ficava andando com a moça numa rua perto da casa dela, depois passava a namorar no portão, depois tinha ingresso na sala da família. Era sinal de que já estava praticamente noivo e seguro.
Houve um tempo em que havia tempo.
Houve um tempo.

SANT’ANNA, A. R. Estado de Minas. 5 maio 2013 (fragmento).

Nessa crônica, a repetição do trecho “Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que…” configura-se como uma estratégia argumentativa que visa

Resolução

A questão avalia a compreensão das estratégias argumentativas e recursos linguísticos presentes em um texto de gênero crônica.

A repetição do trecho "Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que…" é um recurso chamado anáfora — a reiteração de uma expressão no início de segmentos textuais. Nesse caso, a anáfora não tem apenas valor estético: ela cumpre uma função argumentativa específica de acumulação emocional, criando um ritmo que reforça a nostalgia e conduz o leitor a refletir sobre como as relações humanas eram marcadas pela confiança, tranquilidade e tempo para o outro.

A alternativa correta aponta que o objetivo é sensibilizar o leitor sobre um modo de viver e se relacionar mais aprazível — leite e pão deixados sem medo de roubo, namoros seguros, visitas espontâneas. O texto não busca apenas narrar curiosidades do passado, nem censurar o presente ou dar conselhos práticos sobre gestão do tempo. Também não pretende simplesmente provar a veracidade dos fatos: o próprio título irônico "Você pode não acreditar" indica que o propósito é tocar afetivamente o leitor, provocando empatia e reflexão sobre a perda de uma vida comunitária mais humana.

O encerramento — "Houve um tempo em que havia tempo. Houve um tempo." — confirma que o argumento central é sentimental e relacional, não informativo ou prescritivo.

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