Questão 99 — ENEM 2016 (Linguagens)

Em casa, Hideo ainda podia seguir fiel ao imperador japonês e às tradições que trouxera no navio que aportara em Santos. \[…\] Por isso Hideo exigia que, aos domingos, todos estivessem juntos durante o almoço. Ele se sentava à cabeceira da mesa; à direita ficava Hanashiro, que era o primeiro filho, e Hitoshi, o segundo, e à esquerda, Haruo, depois Hiroshi, que era o mais novo. \[…\] A esposa, que também era mãe, e as filhas, que também eram irmãs, aguardavam de pé ao redor da mesa \[…\]. Haruo reclamava, não se cansava de reclamar: que se sentassem também as mulheres à mesa, que era um absurdo aquele costume. Quando se casasse, se sentariam à mesa a esposa e o marido, um em frente ao outro, porque não era o homem melhor que a mulher para ser o primeiro \[…\]. Elas seguiam de pé, a mãe um pouco cansada dos protestos do filho, pois o momento do almoço era sagrado, não era hora de levantar bandeiras inúteis \[…\].

NAKASATO, O. Nihonjin. São Paulo: Benvirá, 2011 (fragmento).

Referindo-se a práticas culturais de origem nipônica, o narrador registra as reações que elas provocam na família e mostra um contexto em que

Resolução

O fragmento do romance Nihonjin, de Oscar Nakasato, narra a cena do almoço dominical da família de Hideo, imigrante japonês que mantém os costumes trazidos do Japão. A questão avalia a habilidade de interpretação de texto literário, especialmente o reconhecimento de elementos simbólicos e metafóricos na narrativa.

O ponto central do trecho está na disposição dos personagens à mesa: o pai ocupa a cabeceira, os filhos homens se sentam em ordem de nascimento, enquanto a esposa e as filhas ficam de pé. Essa organização espacial não é apenas um costume alimentar — ela representa visualmente uma hierarquia de poder baseada em gênero e primogenitura. Haruo percebe isso e protesta, desejando igualdade entre homem e mulher. A resistência da mãe ao protesto do filho reforça que a estrutura está naturalizada. Portanto, o lugar à mesa funciona como metáfora de uma estrutura de poder social e de gênero, o que torna esta a alternativa correta.

As demais alternativas não se sustentam: o prestígio pessoal não é mencionado; as novas gerações questionam os hábitos, mas não os abandonam (as mulheres continuam de pé); a refeição é o espaço do conflito, não o determinante da agregação familiar; e os conflitos de gênero não são neutralizados — pelo contrário, são explicitados pela voz de Haruo.

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