O mundo revivido
Sobre esta casa e as árvores que o tempo
esqueceu de levar. Sobre o curral
de pedra e paz e de outras vacas tristes
chorando a lua e a noite sem bezerros.
Sobre a parede larga deste açude
onde outras cobras verdes se arrastavam,
e pondo o sol nos seus olhos parados
iam colhendo sua safra de sapos.
Sob as constelações do sul que a noite
armava e desarmava: as Três Marias,
o Cruzeiro distante e o Sete-Estrelo.
Sobre este mundo revivido em vão,
a lembrança de primos, de cavalos,
de silêncio perdido para sempre.
DOBAL, H. A província deserta. Rio de Janeiro: Artenova, 1974.
No processo de reconstituição do tempo vivido, o eu lírico projeta um conjunto de imagens cujo lirismo se fundamenta no
A questão avalia a compreensão do lirismo memorial — a forma como o eu lírico reconstrói o passado por meio de imagens carregadas de afeto.
O poema apresenta uma série de imagens do mundo rural: a casa, o curral, o açude, as cobras, as constelações, os primos, os cavalos, o silêncio. A repetição da preposição "Sobre" no início das estrofes — recurso chamado anáfora — cria uma estrutura de enumeração que funciona como um verdadeiro inventário: o eu lírico cataloga os elementos do passado um a um, cada um carregado de afeto e nostalgia.
A alternativa correta identifica exatamente esse procedimento: o lirismo não nasce de um único sentimento abstrato, mas do levantamento afetivo de memórias concretas, como as "vacas tristes", as "Três Marias" e o "silêncio perdido para sempre".
As demais alternativas são imprecisas: o poema não expressa desejo explícito de retornar à infância, nem inadequação com o presente, nem ressentimento por perdas materiais — o tom é elegíaco, não ressentido. Tampouco há ruptura ou lapso no fluxo temporal; as memórias são apresentadas de forma ordenada e acumulativa.
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