E aqui, antes de continuar este espetáculo, é necessário que façamos uma advertência a todos e a cada um. Neste momento, achamos fundamental que cada um tome uma posição definida. Sem que cada um tome uma posição definida, não é possível continuarmos. É fundamental que cada um tome uma posição, seja para a esquerda, seja para a direita. Admitimos mesmo que alguns tomem uma posição neutra, fiquem de braços cruzados. Mas é preciso que cada um, uma vez tomada sua posição, fique nela! Porque senão, companheiros, as cadeiras do teatro rangem muito e ninguém ouve nada.
FERNANDES, M.; RANGEL, F. Liberdade, liberdade. Porto Alegre: L&PM, 2009.
A peça Liberdade, liberdade, encenada em 1964, apresenta o impasse vivido pela sociedade brasileira em face do regime vigente. Esse impasse é representado no fragmento pelo(a)
A questão avalia a habilidade de reconhecer o uso da ambiguidade linguística e da ironia em textos literários, especialmente no contexto do teatro político brasileiro dos anos 1960.
O fragmento da peça Liberdade, liberdade (1964) explora um duplo sentido proposital: o narrador pede aos espectadores que tomem uma posição definida — para a esquerda, para a direita ou neutra — sob o pretexto de que as cadeiras do teatro rangem. A instrução é aparentemente sobre a postura física do público na plateia, mas funciona simultaneamente como uma metáfora do cenário político do Brasil após o golpe militar de 1964, quando cada cidadão era pressionado a se alinhar ideologicamente.
Essa sobreposição entre o gesto corporal (sentar-se à esquerda ou à direita da cadeira) e o posicionamento político (ser de esquerda ou de direita) é exatamente o recurso que representa o impasse social: a impossibilidade de permanecer neutro diante de um regime autoritário, tratada com ironia pelo texto dramático.
As demais alternativas não capturam esse mecanismo central. O barulho das cadeiras é apenas o elemento de superfície que serve de pretexto para o discurso. A neutralidade não é sugerida como melhor opção, mas apenas admitida como possibilidade. A censura não é o foco do fragmento. E o público não é descrito como inadequado — ao contrário, a inadequação é do regime político, velada pela linguagem teatral.
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