Questão 29 — ENEM 2017 (Linguagens)

TEXTO I

Fundamentam-se as regras da Gramática Normativa nas obras dos grandes escritores, em cuja linguagem as classes ilustradas põem o seu ideal de perfeição, porque nela é que se espelha o que o uso idiomático estabilizou e consagrou.

LIMA, C. H. R. Gramática normativa da língua portuguesa. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.

TEXTO II

Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie — nem sequer mental ou de sonho —, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.

PESSOA, F. O livro do desassossego. São Paulo: Brasiliense, 1986.

A linguagem cumpre diferentes funções no processo de comunicação. A função que predomina nos textos I e II

Resolução

A questão avalia o conhecimento sobre as funções da linguagem, baseadas no modelo de Roman Jakobson, que identificou seis funções segundo o elemento da comunicação que cada mensagem privilegia.

Nos dois textos, a linguagem é utilizada para falar sobre a própria linguagem — ou seja, o código é ao mesmo tempo o meio e o objeto da mensagem. Isso caracteriza a função metalinguística.

No Texto I, o autor discute as regras da Gramática Normativa e o uso idiomático da língua portuguesa, tomando a própria língua como tema. No Texto II, Fernando Pessoa faz uma reflexão apaixonada sobre as palavras, os ritmos verbais e o prazer estético provocado pela linguagem literária — novamente, tendo a língua como objeto central.

A alternativa correta é, portanto, aquela que descreve a função que coloca o foco no código em si, sendo a linguagem o seu próprio referente. As demais alternativas descrevem outras funções: aquela que enfatiza como a mensagem é elaborada corresponde à função poética; a que foca quem a produz corresponde à função emotiva; a dirigida para quem ouve corresponde à função conativa; e a que trata sobre o quê versa o conteúdo corresponde à função referencial.

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