Contranarciso
em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas
o outro
que há em mim
é você
você
e você
assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós
LEMINSKI, P. Toda poesia. São Paulo: Cia. das Letras, 2013.
A busca pela identidade constitui uma faceta da tradição literária, redimensionada pelo olhar contemporâneo. No poema, essa nova dimensão revela a
O poema Contranarciso, de Paulo Leminski, explora o conceito de alteridade — a presença do outro como constitutiva do próprio eu. O título já anuncia a inversão do mito de Narciso: em vez de ver a si mesmo no reflexo, o eu lírico enxerga o outro, e o outro, e o outro — redimensionando a busca pela identidade.
A resposta correta aponta que o poema revela a percepção da empatia como fator de autoconhecimento. Isso fica evidente nos versos \"o outro que há em mim é você\" e \"eu estou em você, eu estou nele, em nós\": reconhecer o outro dentro de si, e a si mesmo no outro, é o caminho para a paz e para a compreensão de quem se é. O autoconhecimento, aqui, passa necessariamente pela empatia.
As demais alternativas não se sustentam: o poema não apaga traços identitários, mas os amplia; não expressa angústia, mas pertencimento; não valoriza um "eu" isolado e autêntico, mas um "eu" que só se completa no coletivo; e longe de afirmar a impossibilidade de pertencer, o poema celebra exatamente essa experiência — \"só quando estamos em nós, estamos em paz\".
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