Questão 32 — ENEM 2017 (Linguagens)

Segundo quadro

Uma sala da prefeitura. O ambiente é modesto. Durante a mutação, ouve-se um dobrado e vivas a Odorico, “viva o prefeito” etc. Estão em cena Dorotéa, Juju, Dirceu, Dulcinéa, o vigário e Odorico. Este último, à janela, discursa.

ODORICO — Povo sucupirano! Agoramente já investido no cargo de Prefeito, aqui estou para receber a confirmação, a ratificação, a autenticação e por que não dizer a sagração do povo que me elegeu.

Aplausos vêm de fora.

ODORICO — Eu prometi que o meu primeiro ato como prefeito seria ordenar a construção do cemitério.

Aplausos, aos quais se incorporam as personagens em cena.

ODORICO — (Continuando o discurso:) Botando de lado os entretantos e partindo pros finalmente, é uma alegria poder anunciar que prafrentemente vocês já poderão morrer descansados, tranquilos e desconstrangidos, na certeza de que vão ser sepultados aqui mesmo, nesta terra morna e cheirosa de Sucupira. E quem votou em mim, basta dizer isso ao padre na hora da extrema-unção, que tem enterro e cova de graça, conforme o prometido.

GOMES, D. O bem amado. Rio de Janeiro: Ediouro, 2012.

O gênero peça teatral tem o entretenimento como uma de suas funções. Outra função relevante do gênero, explícita nesse trecho de O bem amado, é

Resolução

O trecho pertence à peça O bem amado, de Dias Gomes, e avalia a habilidade de reconhecer as funções sociais dos gêneros textuais, especialmente a função crítica do teatro. O conceito central é a sátira: o uso do humor e do exagero para expor e criticar vícios da sociedade ou de indivíduos.

No discurso de Odorico, vários elementos constroem essa sátira do comportamento de políticos: o uso de palavras inventadas e redundantes ("ratificação, autenticação, sagração"; "agoramente", "prafrentemente") que imitam o estilo pomposo de discursos políticos; a promessa absurda de construir um cemitério como primeiro ato de governo; e, sobretudo, a oferta explícita de vantagem clientelista — enterro e cova grátis para quem votou nele. Tudo isso caracteriza uma crítica mordaz ao populismo e à corrupção de agentes públicos.

A alternativa que aponta a denúncia de escassez de recursos não encontra respaldo no texto, que não trata de falta de verba. A censura ao uso da língua não-padrão não é a função do trecho — o desvio linguístico é ferramenta da sátira, não o alvo dela. Preocupação com expectativa de vida tampouco é evocada. Questionar o apoio de agentes públicos ao gestor é periférico e não é o foco da cena.

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