Aí pelas três da tarde
Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom-senso do mundo, aplicando-se em ideias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares a sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo “ciao” ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pelo, mas sem ferir o decoro (o seu decoro, está claro), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento.
NASSAR, R. Menina a caminho. São Paulo: Cia. das Letras, 1997.
Em textos de diferentes gêneros, algumas estratégias argumentativas referem-se a recursos linguístico-discursivos mobilizados para envolver o leitor. No texto, caracteriza-se como estratégia de envolvimento a
A questão avalia o reconhecimento de estratégias de envolvimento do leitor, ou seja, recursos linguístico-discursivos que aproximam o texto do seu interlocutor, criando uma relação de intimidade ou identificação.
A alternativa correta apresenta a explicitação do interlocutor como estratégia de envolvimento. No trecho destacado, o narrador insere um comentário parentético em que se dirige diretamente ao leitor usando o pronome você — "espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído" — e ainda atribui a ele um estado emocional/existencial. Nomear e caracterizar o interlocutor dentro do próprio texto é uma das formas mais diretas de envolvê-lo, pois o leitor se sente pessoalmente interpelado.
A prescrição de comportamentos (verbos no imperativo como "largue", "componha", "faça") é uma marca do gênero textual — o texto imita uma receita ou manual de instruções —, mas essa função instrucional não é, por si só, uma estratégia de envolvimento: ela organiza o conteúdo, não personaliza a relação com o leitor.
A contraposição com "Mas" é um recurso de coesão argumentativa que introduz ressalva, não de aproximação com o interlocutor. A descrição do espaço contextualiza a cena, sendo um recurso descritivo. A comparação "como se retirasse a importância das coisas" é um recurso estilístico que enriquece a linguagem, mas não visa especificamente ao envolvimento do leitor.
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