A lavadeira começou a viver como uma serviçal que impõe respeito e não mais como escrava. Mas essa regalia súbita foi efêmera. Meus irmãos, nos frequentes deslizes que adulteravam este novo relacionamento, eram dardejados pelo olhar severo de Emilie; eles nunca suportaram de bom grado que uma índia passasse a comer na mesa da sala, usando os mesmos talheres e pratos, e comprimindo com os lábios o mesmo cristal dos copos e a mesma porcelana das xícaras de café. Uma espécie de asco e repulsa tingia-lhes o rosto, já não comiam com a mesma saciedade e recusavam-se a elogiar os pastéis de picadinho de carneiro, os folheados de nata e tâmara, e o arroz com amêndoas, dourado, exalando um cheiro de cebola tostada. Aquela mulher, sentada e muda, com o rosto rastreado de rugas, era capaz de tirar o sabor e o odor dos alimentos e de suprimir a voz e o gesto como se o seu silêncio ou a sua presença que era só silêncio impedisse o outro de viver.
HATOUM, M. Relato de um certo Oriente. São Paulo: Cia. das Letras, 2000.
Ao apresentar uma situação de tensão em família, o narrador destila, nesse fragmento, uma percepção das relações humanas e sociais demarcada pelo
O fragmento de Milton Hatoum narra o momento em que uma lavadeira indígena passa a compartilhar a mesa da família, o que provoca reação de asco e repulsa nos irmãos do narrador. Eles se recusam a compartilhar talheres, copos e xícaras com ela, e a presença dela chega a tirar o prazer da comida.
O conceito central avaliado é a tensão entre o convívio social forçado e os preconceitos de raça e de classe. A mulher é duplamente marcada: por ser indígena (marcador racial) e por ter sido serviçal/escrava (marcador de classe). Mesmo com a mudança de status imposta por Emilie, esses estigmas se sobrepõem à nova realidade e impedem a aceitação genuína, revelando que o preconceito estrutural é mais forte do que a regra doméstica.
As demais alternativas não se sustentam no texto: não há discurso de ética doméstica sendo defendido pelos irmãos, nem desejo de superar a escassez, nem insubordinação à matriarca (os irmãos resistem à índia, não a Emilie), nem rancor por ingratidão. O que o narrador destila é, portanto, a percepção de que estigmas históricos de raça e classe prevalecem mesmo diante da intimidade do convívio cotidiano.
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