O instituto popular, de acordo com o exame da razão, fez da figura do alferes Xavier o principal dos inconfidentes, e colocou os seus parceiros a meia ração de glória. Merecem, decerto, a nossa estima aqueles outros; eram patriotas. Mas o que se ofereceu a carregar com os pecadores de Israel, o que chorou de alegria quando viu comutada a pena de morte dos seus companheiros, pena que só ia ser executada nele, o enforcado, o esquartejado, o decapitado, esse tem de receber o prêmio na proporção do martírio, e ganhar por todos, visto que pagou por todos.
ASSIS, M. Gazeta de Notícias, n. 114, 24 abr. 1892.
No processo de transição para a República, a narrativa machadiana sobre a Inconfidência Mineira associa
A questão avalia a capacidade de interpretar um texto literário identificando as referências culturais e ideológicas mobilizadas pelo autor. Machado de Assis, escrevendo em 1892 — logo após a Proclamação da República —, utiliza a figura de Tiradentes para construir uma narrativa que combina dois repertórios distintos.
O primeiro é o da redenção cristã: o texto é repleto de imagens que evocam a paixão de Cristo — "carregar com os pecadores de Israel" (alusão ao cordeiro que carrega os pecados do mundo), o sacrifício em lugar dos outros ("pagou por todos"), o martírio descrito em seus detalhes físicos (enforcado, esquartejado, decapitado) e a proporcionalidade entre sofrimento e glória. Tiradentes é, na narrativa machadiana, uma figura messiânica que se redime e redime os companheiros.
O segundo é o da cultura cívica: o texto enquadra esse sacrifício no contexto patriótico da Inconfidência Mineira, usando termos como "patriotas" e "glória", e conectando o martírio individual à fundação de um ideal coletivo — exatamente o que o republicanismo do final do século XIX precisava: um herói nacional de statura quase sagrada.
As demais alternativas não encontram respaldo no texto: não há referência a santos, radicalismo militar, protestantismo, ufanismo, regionalismo nem a instituições eclesiásticas ou dogmas ideológicos. A fusão entre linguagem religiosa e discurso patriótico é o núcleo da associação que Machado de Assis opera.
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