Enquanto isso, nos bastidores do universo
Você planeja passar um longo tempo em outro país, trabalhando e estudando, mas o universo está preparando a chegada de um amor daqueles de tirar o chão, um amor que fará você jogar fora seu atlas e criar raízes no quintal como se fosse uma figueira.
Você treina para a maratona mais desafiadora de todas, mas não chegará com as duas pernas intactas na hora da largada, e a primeira perplexidade será esta: a experiência da frustração.
O universo nunca entrega o que promete. Aliás, ele nunca prometeu nada, você é que escuta vozes.
No dia em que você pensa que não tem nada a dizer para o analista, faz a revelação mais bombástica dos seus dois anos de terapia. O resultado de um exame de rotina coloca sua rotina de cabeça para baixo. Você não imaginava que iriam tantos amigos à sua festa, e tampouco imaginou que justo sua grande paixão não iria. Quando achou que estava bela, não arrasou corações. Quando saiu sem maquiagem e com uma camiseta puída, chamou a atenção. E assim seguem os dias à prova de planejamento e contrariando nossas vontades, pois, por mais que tenhamos ensaiado nossa fala e estejamos preparados para a melhor cena, nos bastidores do universo alguém troca nosso papel de última hora, tornando surpreendente a nossa vida.
MEDEIROS, M. O Globo, 21 jun. 2015.
Entre as estratégias argumentativas utilizadas para sustentar a tese apresentada nesse fragmento, destaca-se a recorrência de
A questão avalia a competência leitora de identificar estratégias argumentativas em um texto de opinião. A crônica de M. Medeiros defende a tese de que a vida contraria os planos humanos — o universo nunca entrega o que esperamos.
A estratégia dominante do texto é a construção de oposição (antítese/contraste): em cada exemplo, a autora apresenta uma expectativa e, em seguida, introduz o elemento inesperado que a frustra. Isso aparece repetidamente com conectivos adversativos e estruturas paralelas de contraste: "você planeja... mas o universo prepara"; "você treina... mas não chegará intacto"; "quando achou que estava bela, não arrasou corações; quando saiu sem maquiagem, chamou a atenção". A recorrência dessas oposições é justamente o recurso que sustenta e ilustra a tese central.
As demais alternativas identificam elementos que existem no texto, mas que não representam a estratégia principal e mais recorrente: as marcas de interlocução com o leitor ("você") servem como recurso de aproximação, mas estão a serviço das oposições; as estruturas sintáticas semelhantes existem, mas o efeito argumentativo que criam é o de contraste, não o de velocidade; os tempos verbais variam e não se limitam ao presente; e as passagens são narrativo-argumentativas, não predominantemente descritivas.
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