Questão 30 — ENEM 2018 (Linguagens)

Eu sobrevivi do nada, do nada

Eu não existia

Não tinha uma existência

Não tinha uma matéria

Comecei existir com quinhentos milhões

e quinhentos mil anos

Logo de uma vez, já velha

Eu não nasci criança, nasci já velha

Depois é que eu virei criança

E agora continuei velha

Me transformei novamente numa velha

Voltei ao que eu era, uma velha

PATROCÍNIO, S. In: MOSÉ, V. (Org.). Reino dos bichos e dos animais é meu nome.

Rio de Janeiro: Azougue, 2009.

Nesse poema de Stela do Patrocínio, a singularidade da expressão lírica manifesta-se na

Resolução

Esse poema de Stela do Patrocínio explora a desconstrução das referências temporais como elemento central de sua expressão lírica singular. O eu lírico afirma ter surgido do nada, existido por quinhentos milhões e quinhentos mil anos, ter nascido já velha, depois ter virado criança e retornado à velhice — uma sequência que subverte completamente a lógica racional do tempo linear (nascimento → crescimento → envelhecimento).

A alternativa correta aponta exatamente essa transgressão à razão: o poema rompe com as convenções lógicas e cronológicas, ecoando uma temporalidade cíclica e paradoxal que desafia o senso comum. Esse é o traço mais singular da voz lírica da autora, cujo discurso poético é marcado por uma lógica própria e subversiva.

As demais alternativas não se sustentam: o poema não tem como foco o resgate da infância pela memória, nem se trata de imagens meramente desconexas ou de incoerência sem sentido — há uma coerência interna na desconstrução proposta. Também não é o relato de experiências de alteridade nem a incorporação de elementos fantásticos com versos incoerentes o que define a singularidade da expressão.

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