o que será que ela quer
essa mulher de vermelho
alguma coisa ela quer
pra ter posto esse vestido
não pode ser apenas
uma escolha casual
podia ser um amarelo
verde ou talvez azul
mas ela escolheu vermelho
ela sabe o que ela quer
e ela escolheu vestido
e ela é uma mulher
então com base nesses fatos
eu já posso afirmar
que conheço o seu desejo
caro watson, elementar:
o que ela quer sou euzinho
sou euzinho o que ela quer
só pode ser euzinho
o que mais podia ser
FREITAS, A. Um útero é do tamanho de um punho.
São Paulo: Cosac Naify, 2013.
No processo de elaboração do poema, a autora confere ao eu lírico uma identidade que aqui representa a
O poema de Ana Freitas constrói um eu lírico masculino que, ao ver uma mulher vestida de vermelho, encadeia uma série de raciocínios aparentemente lógicos — parodiando o método dedutivo de Sherlock Holmes ("caro watson, elementar") — para concluir que ela o deseja. O humor e a crítica residem exatamente aí: a lógica apresentada como sofisticada é, na verdade, puro senso comum sexista, sustentada em estereótipos (a cor vermelha como sinal de sedução, o fato de ser mulher como prova de intenção). O eu lírico representa o homem que disfarça de raciocínio dedutivo aquilo que é, no fundo, uma presunção arrogante baseada em clichês culturais. A hipocrisia está em apresentar como conclusão lógica o que é apenas um preconceito vestido de método.
As demais alternativas não se sustentam: o poema não trata de mudança de paradigmas sobre a imagem da mulher (a mulher sequer fala ou age — é apenas projetada pelo olhar masculino), nem de psicologia feminina, nem de relação entre ações e efeitos, nem de sensibilidade como característica de gênero. O foco é a crítica ao discurso masculino que se autolegitima com base no senso comum.
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