O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a
imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás
de casa.
Passou um homem e disse: Essa volta que o
rio faz por trás de sua casa se chama enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que
fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.
BARROS, M. O livro das ignorãças.
Rio de Janeiro: Best Seller, 2008.
O sujeito poético questiona o uso do vocábulo “enseada” porque a
O poema de Manoel de Barros explora a tensão entre a linguagem poética e a linguagem denotativa. Antes de receber um nome técnico, o rio era descrito por meio de uma imagem sensorial e subjetiva: "a imagem de um vidro mole que fazia uma volta". Essa descrição evoca sensações, movimento e beleza, permitindo ao leitor construir sua própria percepção do fenômeno.
Quando o homem nomeia o acidente geográfico como "enseada", a palavra técnica substitui a experiência imaginativa. O sujeito poético lamenta isso ao afirmar que "o nome empobreceu a imagem": o vocábulo preciso e objetivo encerra a pluralidade de sentidos que a descrição subjetiva permitia. Ou seja, a nomeação técnica reduz a riqueza da percepção individual e sensível do fenômeno.
As demais alternativas não se sustentam no texto: a terminologia "enseada" não é incorreta geograficamente; o problema não é desconhecimento do significado do termo nem sua aplicação a outro espaço — pelo contrário, a palavra é correta e conhecida. O ponto central é justamente que a precisão do nome empobrece a experiência subjetiva, não que o termo seja errado ou ignorado.
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