Certa vez minha mãe surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, virando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos. Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados com água de sal – e houve uma discussão na família. Minha avó, que nos visitava, condenou o procedimento da filha e esta afligiu-se. Irritada, ferira-me à toa, sem querer. Não guardei ódio a minha mãe: o culpado era o nó.
RAMOS, G. Infância.
Rio de Janeiro: Record, 1998.
Num texto narrativo, a sequência dos fatos contribui para a progressão temática. No fragmento, esse processo é indicado pela
A questão avalia a habilidade de reconhecer como os tempos verbais constroem a progressão temática em textos narrativos literários.
No fragmento de Graciliano Ramos, o narrador conduz o leitor por diferentes momentos do episódio usando formas verbais em tempos distintos: surrou-me e distinguia marcam a ação e a percepção simultânea durante o castigo; deitaram-me e enrolaram-me avançam para as ações imediatas de socorro; não guardei ódio e era o culpado encerram o episódio com a reflexão do narrador. Essa variação entre o pretérito perfeito (ações pontuais e concluídas) e o pretérito imperfeito (estados e ações em curso) é o mecanismo que organiza a sequência dos fatos e faz a narrativa progredir tematicamente.
As demais alternativas não se sustentam no fragmento: o ponto de vista narrativo é mantido em primeira pessoa do início ao fim, sem alternância; os sujeitos são identificáveis (o narrador, a mãe, a avó), sem indeterminação; e não há recorrência de expressões adverbiais de tempo estruturando os eventos.
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