A Casa de Vidro
Houve protestos.
Deram uma bola a cada criança e tempo para brincar. Elas aprenderam malabarismos incríveis e algumas viajavam pelo mundo exibindo sua alegre habilidade. (O problema é que muitos, a maioria, não tinham jeito e eram feios de noite, assustadores. Seria melhor prender essa gente – havia quem dissesse.)
Houve protestos.
Aumentaram o preço da carne, liberaram os preços dos cereais e abriram crédito a juros baixos para o agricultor. O dinheiro que sobrasse, bem, digamos, ora o dinheiro que sobrasse!
Houve protestos.
Diminuíram os salários (infelizmente aumentou o número de assaltos) porque precisamos combater a inflação e, como se sabe, quando os salários estão acima do índice de produtividade eles se tornam altamente inflacionários, de modo que.
Houve protestos.
Proibiram os protestos.
E no lugar dos protestos nasceu o ódio. Então surgiu a Casa de Vidro, para acabar com aquele ódio.
ÂNGELO, I. A casa de vidro.
São Paulo: Círculo do Livro, 1985.
Publicado em 1979, o texto compartilha com outras obras da literatura brasileira escritas no período as marcas do contexto em que foi produzido, como a
A questão avalia a capacidade de reconhecer recursos literários utilizados pela literatura brasileira produzida durante o Regime Militar (1964–1985) e relacioná-los ao contexto histórico de sua produção.
O texto de Ivan Ângelo recorre sistematicamente à ironia e às metáforas para criticar a situação social e política do Brasil. A ironia aparece em construções como "infelizmente aumentou o número de assaltos" — inserida como parêntese casual após o corte de salários —, revelando o absurdo das políticas econômicas sem nomeá-lo diretamente. A metáfora da "Casa de Vidro" e das bolas dadas às crianças funcionam como alegorias da distração e do controle social. A repetição anafórica de "Houve protestos" reforça, com ironia crescente, o ciclo de repressão até seu desfecho: a proibição dos próprios protestos.
A alternativa que fala em censura e opressão para alegorizar a falta de liberdade está parcialmente correta em conteúdo, mas equivocada ao identificar a alegoria como recurso central — o texto não é alegórico em sentido estrito, mas irônico e metafórico. A que menciona valorização do cotidiano para atenuar a revolta contraria o tom do texto, que intensifica o senso de injustiça. A tendência realista-documental não se aplica: o texto é ficcional e estilizado, não jornalístico. A que fala em sobreposição do discurso oficial sobre as manifestações descreve um fenômeno presente no texto, mas não identifica o recurso literário que o caracteriza como obra de seu tempo.
Portanto, a alternativa correta é a que destaca o uso de metáforas e ironias como forma de crítica social e política — marca definidora da literatura brasileira de resistência produzida sob a ditadura.
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