Questão 83 — ENEM 2018 (Humanas)

Não é verdade que estão ainda cheios de velhice espiritual aqueles que nos dizem: “Que fazia Deus antes de criar o céu e a terra? Se estava ocioso e nada realizava”, dizem eles, “por que não ficou sempre assim no decurso dos séculos, abstendo-se, como antes, de toda ação? Se existiu em Deus um novo movimento, uma vontade nova para dar o ser a criaturas que nunca antes criara, como pode haver verdadeira eternidade, se n’Ele aparece uma vontade que antes não existia?”

AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Abril Cultural, 1984.

A questão da eternidade, tal como abordada pelo autor, é um exemplo da reflexão filosófica sobre a(s)

Resolução

O trecho de Agostinho nas Confissões apresenta um problema filosófico clássico da tradição cristã: a dificuldade que o intelecto humano tem de compreender a eternidade divina. Os críticos mencionados por Agostinho aplicam à eternidade de Deus uma lógica temporal — perguntando o que Deus fazia antes de criar o mundo — sem perceber que a própria noção de "antes" pressupõe o tempo, que é uma criatura, não uma condição prévia a Deus.

A questão avalia exatamente os limites da compreensão humana diante do infinito e do eterno. Ao tentar enquadrar Deus em categorias temporais ("ócio", "nova vontade", "antes"), a mente humana revela sua incapacidade de abarcar uma realidade que transcende o tempo e a mudança. Agostinho não responde à pergunta de forma direta; em vez disso, expõe que a própria formulação da pergunta denuncia os limites cognitivos de quem a faz.

As demais alternativas são inadequadas porque: a essência da ética cristã não é o tema central do argumento; a tradição universal não está sendo discutida; não há certezas inabaláveis da experiência sendo afirmadas — pelo contrário, a experiência humana é insuficiente para captar o eterno; e a realidade circundante (empírica) também não é o foco, mas sim a realidade transcendente e metafísica de Deus.

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