Rodrigo havia sido indicado pela oposição para fiscal duma das mesas eleitorais. Pôs o revólver na cintura, uma caixa de balas no bolso e encaminhou-se para seu posto. A chamada dos eleitores começou às sete da manhã. Plantados junto da porta, os capangas do Trindade ofereciam cédulas com o nome dos candidatos oficiais a todos os eleitores que entravam. Estes, em sua quase totalidade, tomavam docilmente dos papeluchos e depositavam-nos na urna, depois de assinar a autêntica. Os que se recusavam a isso tinham seus nomes acintosamente anotados.
VERISSIMO, E. O tempo e o vento.
São Paulo: Globo, 2003 (adaptado).
Erico Verissimo tematiza em obra ficcional o seguinte aspecto característico da vida política durante a Primeira República:
O texto de Erico Verissimo retrata a prática do coronelismo e da fraude eleitoral durante a Primeira República brasileira (1889–1930). O trecho evidencia a coerção exercida sobre os eleitores: capangas armados distribuíam cédulas com nomes dos candidatos oficiais e anotavam acintosamente (ou seja, de forma proposital e intimidadora) os nomes de quem se recusasse a votar nos candidatos impostos.
Esse comportamento caracteriza a repressão explícita ao exercício de um direito — o voto livre e secreto — típica do chamado voto de cabresto, mecanismo pelo qual coronéis e suas forças de apoio controlavam os resultados eleitorais por meio de ameaças e violência aberta. O próprio fiscal da oposição (Rodrigo) sente necessidade de andar armado, o que confirma o ambiente de intimidação institucionalizada.
As demais alternativas não encontram respaldo no texto: não há menção a identificação de analfabetos, fiscalização legal, propaganda rural ou repressão a operários sindicalizados. O excerto foca exclusivamente no cerceamento violento da liberdade de voto.
Todas as questões do ENEM · Simulado ENEM — questões com gabarito e explicação, grátis e sem cadastro.