No início da década de 1990, dois biólogos importantes, Redford e Robinson, produziram um modelo largamente aceito de “produção sustentável” que previa quantos indivíduos de cada espécie poderiam ser caçados de forma sustentável baseado nas suas taxas de reprodução. Os seringueiros do Alto Juruá tinham um modelo diferente: a quem lhes afirmava que estavam caçando acima do sustentável (dentro do modelo), eles diziam que não, que o nível da caça dependia da existência de áreas de refúgio em que ninguém caçava. Ora, esse acabou sendo o modelo batizado de “fonte-ralo” proposto dez anos após o primeiro por Novaro, Bodmer e o próprio Redford e que suplantou o modelo anterior.
CUNHA, M. C. Revista USP, n. 75, set.-nov. 2007.
No contexto da produção científica, a necessidade de reconstrução desse modelo, conforme exposto no texto, foi determinada pelo confronto com um(a)
O texto aborda a relação entre conhecimento científico formal e conhecimento empírico popular, tema central na filosofia da ciência e na sociologia do conhecimento — habilidade frequentemente cobrada no ENEM.
Os seringueiros do Alto Juruá, sem formação acadêmica em biologia, acumularam ao longo de gerações um saber prático sobre o comportamento da fauna local. Eles observaram, a partir da própria experiência de vida e subsistência, que a sustentabilidade da caça dependia da existência de áreas de refúgio onde os animais não eram perseguidos. Esse saber, construído pela vivência cotidiana e transmitido culturalmente, é caracterizado como conhecimento empírico — baseado na experiência direta — apropriado pelo senso comum, ou seja, pertencente ao universo do saber prático e não sistematizado cientificamente.
O confronto entre esse conhecimento popular e o modelo científico vigente foi tão significativo que, uma década depois, os próprios cientistas reviram o modelo original e incorporaram o princípio das áreas de refúgio (modelo fonte-ralo), validando o que os seringueiros já sabiam intuitivamente.
As demais alternativas não se sustentam: a lógica dedutiva parte de premissas formais, não de experiência vivida; preconceitos morais e religiosidade popular não têm relação com o conteúdo do texto; e experimentação dirigida remete ao método científico controlado, o oposto do saber cotidiano dos seringueiros.
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