Uma ouriça
Se o de longe esboça lhe chegar perto,
se fecha (convexo integral de esfera),
se eriça (bélica e multiespinhenta):
e, esfera e espinho, se ouriça à espera.
Mas não passiva (como ouriço na loca);
nem só defensiva (como se eriça o gato);
sim agressiva (como jamais o ouriço),
do agressivo capaz de bote, de salto
(não do salto para trás, como o gato):
daquele capaz de salto para o assalto.
Se o de longe lhe chega em (de longe),
de esfera aos espinhos, ela se desouriça.
Reconverte: o metal hermético e armado
na carne de antes (côncava e propícia),
e as molas felinas (para o assalto),
nas molas em espiral (para o abraço).
MELO NETO, J. C. A educação pela pedra. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1997.
Com apuro formal, o poema tece um conjunto semântico que metaforiza a atitude feminina de
O poema constrói uma metáfora corporal: a ouriça, diante do que se aproxima de longe (um perigo desconhecido), fecha-se, eriça-se e assume postura agressiva, com "molas felinas para o assalto" e um "metal hermético e armado". Essa é a fase de defesa tenaz, quase blindada.
Porém, quando o que se aproxima é reconhecido como próximo, da mesma natureza ("de esfera aos espinhos"), ocorre a reconversão: o metal duro vira "carne côncava e propícia" e as molas de ataque tornam-se "molas em espiral para o abraço". Ou seja, a rigidez defensiva se converte em acolhimento e ternura.
Essa transição do estado espinhoso e combativo para o estado macio e receptivo metaforiza uma atitude feminina de firmeza que, diante do parceiro certo, se converte em suavidade e entrega — exatamente o sentido de tenacidade transformada em brandura.
As demais opções não se sustentam no texto: não há isolamento (há reaproximação e abraço), não há inércia por desejo platônico (a ouriça age, não se abstém), não há irreverência cautelosa nem desconfiança que resulte em intolerância — pelo contrário, a desconfiança inicial se dissolve em acolhimento.
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