Essa lua enlutada, esse desassossego
A convulsão de dentro, ilharga
Dentro da solidão, corpo morrendo
Tudo isso te devo. E eram tão vastas
As coisas planejadas, navios,
Muralhas de marfim, palavras largas
Consentimento sempre. E seria dezembro.
Um cavalo de jade sob as águas
Dupla transparência, fio suspenso
Todas essas coisas na ponta dos teus dedos
E tudo se desfez no pórtico do tempo
Em lívido silêncio. Umas manhãs de vidro
Vento, a alma esvaziada, um sol que não vejo
Também isso te devo.
HILST, H. Júbilo, memória, noviciado da paixão. São Paulo: Cia. das Letras, 2018.
No poema, o eu lírico faz um inventário de estados passados espelhados no presente. Nesse processo, aflora o
A questão avalia a leitura de figuras de linguagem e da construção de sentido em poesia lírica, especificamente a capacidade de identificar o tom predominante em um discurso confessional sobre o passado.
Ao longo do poema, o eu lírico recorda planos, imagens e sensações vividas ("coisas planejadas", "palavras largas", "consentimento sempre") e as contrapõe ao presente de perda e vazio ("corpo morrendo", "alma esvaziada", "lívido silêncio"). A repetição do verso "Tudo isso te devo" e "Também isso te devo" sugere um balanço afetivo maduro: o eu lírico reconhece o que viveu e sentiu sem se entregar à dor ou à revolta, tratando a perda com distanciamento crítico e sutil ironia, típico de quem já processou a experiência e a observa de fora. Por isso, o que aflora é um amadurecimento revestido de ironia e desapego.
As demais opções não se sustentam: não há esforço de apagar lembranças, pois o poema é justamente um ato de rememoração; as imagens evocadas misturam perda e vazio, não formam um mosaico apenas de alegrias; não há indício de delírio ou repressão erótica; e o tom não é de culpa ou arrependimento, mas de aceitação serena e distanciada do que passou.
Todas as questões do ENEM · Simulado ENEM — questões com gabarito e explicação, grátis e sem cadastro.