Retrato de homem
A paisagem estrita
ao apuro do muro
feito vértebra a vértebra
e escuro.
A geração dos pelos
sobre a casca e os rostos
em seus diques de sombra
repostos.
Os poços com seu lodo
de ira e de tensão:
entre cimento e fronte
— um vão.
As setas se atiram
às margens de ninguém,
ilesas a si mesmas
retêm.
Compassos de evasão
entre falange e rua
sondando a solitude
nua.
E na armadura de coisa
salobra, um só segredo:
a polpa toda é fruição
de medo.
ARAÚJO, L. C. Cantochão. Belo Horizonte: Imprensa Publicações — Governo do Estado
de Minas Gerais, 1967.
No poema, a descrição lírica do objeto representado é orientada por um olhar que
Este poema pertence ao gênero lírico e exige habilidades de interpretação de texto literário, especialmente a leitura de imagens poéticas e a compreensão da relação entre forma e conteúdo.
O poema constrói a imagem de um homem por meio de metáforas de dureza e fechamento: muro, cimento, armadura, diques de sombra. Essa linguagem sugere uma aparência de austeridade, rigidez, contenção. No entanto, o último verso revela o segredo que se esconde por baixo dessa superfície dura: "a polpa toda é fruição de medo". A polpa — o interior, o núcleo — é inteiramente tomada pelo medo. O verso "entre cimento e fronte — um vão" reforça ainda a ideia de vazio entre a casca exterior e a consciência interna.
Assim, o olhar lírico do poema desvela sentimentos de vazio e angústia escondidos sob uma aparência austera, o que torna essa alternativa correta.
As demais alternativas se equivocam ao introduzir elementos ausentes do texto: não há desilusão diante da superação do sofrimento, nem menção ao uso de força física, nem crítica a determinações culturais, nem valorização do dinamismo urbano como tema central.
Todas as questões do ENEM · Simulado ENEM — questões com gabarito e explicação, grátis e sem cadastro.