Questão 18 — ENEM 2020 (Linguagens)

Retrato de homem

A paisagem estrita

ao apuro do muro

feito vértebra a vértebra

e escuro.

A geração dos pelos

sobre a casca e os rostos

em seus diques de sombra

repostos.

Os poços com seu lodo

de ira e de tensão:

entre cimento e fronte

— um vão.

As setas se atiram

às margens de ninguém,

ilesas a si mesmas

retêm.

Compassos de evasão

entre falange e rua

sondando a solitude

nua.

E na armadura de coisa

salobra, um só segredo:

a polpa toda é fruição

de medo.

ARAÚJO, L. C. Cantochão. Belo Horizonte: Imprensa Publicações — Governo do Estado

de Minas Gerais, 1967.

No poema, a descrição lírica do objeto representado é orientada por um olhar que

Resolução

Este poema pertence ao gênero lírico e exige habilidades de interpretação de texto literário, especialmente a leitura de imagens poéticas e a compreensão da relação entre forma e conteúdo.

O poema constrói a imagem de um homem por meio de metáforas de dureza e fechamento: muro, cimento, armadura, diques de sombra. Essa linguagem sugere uma aparência de austeridade, rigidez, contenção. No entanto, o último verso revela o segredo que se esconde por baixo dessa superfície dura: "a polpa toda é fruição de medo". A polpa — o interior, o núcleo — é inteiramente tomada pelo medo. O verso "entre cimento e fronte — um vão" reforça ainda a ideia de vazio entre a casca exterior e a consciência interna.

Assim, o olhar lírico do poema desvela sentimentos de vazio e angústia escondidos sob uma aparência austera, o que torna essa alternativa correta.

As demais alternativas se equivocam ao introduzir elementos ausentes do texto: não há desilusão diante da superação do sofrimento, nem menção ao uso de força física, nem crítica a determinações culturais, nem valorização do dinamismo urbano como tema central.

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