Questão 34 — ENEM 2020 (Linguagens)

A vida às vezes é como um jogo brincado na rua: estamos no último minuto de uma brincadeira bem quente e não sabemos que a qualquer momento pode chegar um mais velho a avisar que a brincadeira já acabou e está na hora de jantar. A vida afinal acontece muito de repente — nunca ninguém nos avisou que aquele era mesmo o último Carnaval da Vitória. O Carnaval também chegava sempre de repente. Nós, as crianças, vivíamos num tempo fora do tempo, sem nunca sabermos dos calendários de verdade. [...] O “dia da véspera do Carnaval”, como dizia a avó Nhé, era dia de confusão com roupas e pinturas a serem preparadas, sonhadas e inventadas. Mas quando acontecia era um dia rápido, porque os dias mágicos passam depressa deixando marcas fundas na nossa memória, que alguns chamam também de coração.

ONDJAKI. Os da minha rua. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007.

As significações afetivas engendradas no fragmento pressupõem o reconhecimento da

Resolução

A questão avalia a habilidade de reconhecer como a voz narrativa constrói significações afetivas em um texto literário, especialmente por meio do ponto de vista adotado.

No fragmento, os sentimentos de nostalgia, encantamento e estranheza diante da passagem do tempo são gerados pela perspectiva infantil assumida pelo narrador. Expressões como "Nós, as crianças, vivíamos num tempo fora do tempo, sem nunca sabermos dos calendários de verdade" revelam um olhar que não compreende o calendário adulto, tornando o Carnaval um evento mágico e sempre surpreendente. É essa visão de mundo específica — a da criança que vive o presente de forma intensa e desconhece o fim das coisas — que engendra os afetos presentes no texto.

A alternativa que fala em suspensão da linearidade temporal não é adequada porque o texto não rompe a ordem cronológica da narração; ele apenas descreve como o tempo era percebido pelas crianças. A alternativa sobre materializar lembranças confunde o efeito (evocar afetos) com uma intenção técnica de concretizar memórias. A que menciona a incidência da memória sobre as imagens aponta um elemento presente no texto, mas que é consequência da perspectiva infantil, não a sua origem. Por fim, a alternativa sobre alternância entre impressões subjetivas e relatos factuais não se sustenta, pois o texto mantém um registro predominantemente subjetivo e afetivo ao longo de todo o trecho.

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