Questão 6 — ENEM 2020 (Linguagens)

Vou-me embora p’ra Pasárgada foi o poema de mais longa gestação em toda a minha obra. Vi pela primeira vez esse nome Pasárgada quando tinha os meus dezesseis anos e foi num autor grego. [...] Esse nome de Pasárgada, que significa “campo dos persas” ou “tesouro dos persas”, suscitou na minha imaginação uma paisagem fabulosa, um país de delícias, como o de L’invitation au Voyage, de Baudelaire. Mais de vinte anos depois, quando eu morava só na minha casa da Rua do Curvelo, num momento de fundo desânimo, da mais aguda sensação de tudo o que eu não tinha feito em minha vida por motivo da doença, saltou-me de súbito do subconsciente este grito estapafúrdio: “Vou-me embora p’ra Pasárgada!” Senti na redondilha a primeira célula de um poema, e tentei realizá-lo, mas fracassei. Alguns anos depois, em idênticas circunstâncias de desalento e tédio, me ocorreu o mesmo desabafo de evasão da “vida besta”. Desta vez o poema saiu sem esforço como se já estivesse pronto dentro de mim. Gosto desse poema porque vejo nele, em escorço, toda a minha vida; [...] Não sou arquiteto, como meu pai desejava, não fiz nenhuma casa, mas reconstruí e “não de uma forma imperfeita neste mundo de aparências”, uma cidade ilustre, que hoje não é mais a Pasárgada de Ciro, e sim a “minha” Pasárgada.

BANDEIRA, M. Itinerário de Pasárgada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1984.

Os processos de interação comunicativa preveem a presença ativa de múltiplos elementos da comunicação, entre os quais se destacam as funções da linguagem.

Nesse fragmento, a função da linguagem predominante é a

Resolução

O conceito avaliado é o das funções da linguagem, especificamente a capacidade de identificar qual função predomina em um dado texto.

A função metalinguística ocorre quando a linguagem é usada para falar sobre a própria linguagem ou sobre uma obra literária. No fragmento, Manuel Bandeira usa a prosa para explicar a gênese do poema «Vou-me embora p'ra Pasárgada»: conta como descobriu o nome, como o verso brotou de seu subconsciente, por que fracassou na primeira tentativa e como o poema finalmente «saiu sem esforço». O objeto do discurso é, portanto, o próprio poema e seu processo de criação — característica central da função metalinguística.

A função emotiva se caracteriza pela expressão de estados internos do emissor como fim principal do texto; aqui, embora sentimentos apareçam, eles estão subordinados à reflexão sobre a obra. A função referencial priorizaria a transmissão objetiva de informações sobre o mundo externo, sem o foco reflexivo no texto literário em si. A função poética se manifesta quando a forma da linguagem (ritmo, sonoridade, ambiguidade) é o elemento central — o que não é o caso deste trecho em prosa explicativa. A função apelativa visa influenciar o comportamento do receptor, o que também não é o objetivo do fragmento.

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