Seus primeiros anos de detento foram difíceis; aos poucos entendeu como o sistema funciona. Apanhou dezenas de vezes, teve o crânio esmagado, o maxilar deslocado, braços e pernas quebrados; por fim, um dia ficou lesionado da perna quando foi jogado da laje de um pavilhão. Nem todas as vezes ele soube por que apanhou, muito menos da última, quando foi deixado para morrer, mas sobreviveu.
Seu corpo, moído no inferno, aguarda o fim dos seus dias. Já não questiona mais. Obedece. Cumpre as ordens. Baixa a cabeça e se retira. Apanha, às vezes com motivo, às vezes sem. Por onde passou, derramaram seu sangue. Seu rastro pode ser seguido. Intriga ter sobrevivido durante tantos anos. Pouquíssimos chegaram à terceira idade encarcerados.
MAIA, A. P. Assim na terra como embaixo da terra. Rio de Janeiro: Record, 2017.
A narrativa concentra sua força expressiva no manejo de recursos formais e numa representação ficcional que
O trecho de Assim na terra como embaixo da terra, de Ana Paula Maia, constrói sua força expressiva por meio da acumulação de imagens de violência sistemática e da voz narrativa em terceira pessoa, distante e quase clínica, que descreve com frieza os corpos destruídos e a submissão total do protagonista.
A alternativa correta aponta que a narrativa traz à tona atitudes de um estado de exceção. O conceito de estado de exceção, formulado pelo filósofo Giorgio Agamben, refere-se a uma zona onde o direito é suspenso e a violência opera sem justificativa legal ou moral — exatamente o que o texto representa: o preso apanha sem saber por quê, não pode questionar, apenas obedecer e sobreviver. A violência é arbitrária, institucionalizada e sem accountability. Isso não é excepcionalidade: é a regra dentro do espaço retratado.
As demais alternativas não se sustentam pela análise formal do texto. A narrativa não perpetua visões de senso comum, pois desnuda uma realidade encoberta. Também não promove interlocução direta com grupos silenciados, já que a voz narrativa é distanciada, não dialógica. O sentimento evocado não é de justiça — é de impotência e desumanização. Por fim, o texto não recorre ao absurdo: a representação é de um realismo brutal e verossímil, sem distorções fantásticas ou ilógicas.
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