- O senhor pensa que só porque o deixaram morar neste país pode logo ir fazendo o que quer? Nunca ouviu falar num troço chamado autoridades constituídas? Não sabe que tem de conhecer as leis do país? Não sabe que existe uma coisa chamada Exército Brasileiro, que o senhor tem de respeitar? Que negócio é esse? [...]
Eu ensino o senhor a cumprir a lei, ali no duro: dura lex! Seus filhos são uns moleques e outra vez que eu souber que andaram incomodando o General, vai tudo em cana. Morou? Sei como tratar gringos feito o senhor. [...]
Foi então que a mulher do vizinho do General interveio: - Era tudo que o senhor tinha a dizer a meu marido? O delegado apenas olhou-a, espantado com o atrevimento.
- Pois então fique sabendo que eu também sei tratar tipos como o senhor. Meu marido não é gringo nem meus filhos são moleques. Se por acaso importunaram o General, ele que viesse falar comigo, pois o senhor também está nos importunando. E fique sabendo que sou brasileira, sou prima de um Major do Exército, sobrinha de um Coronel, e filha de um General! Morou?
Estarrecido, o delegado só teve força para engolir em seco e balbuciar humildemente: - Da ativa, minha senhora?
SABINO, F. A mulher do vizinho. In: Os melhores contos. Rio de Janeiro: Record, 1986.
A representação do discurso intimidador engendrada no fragmento é responsável por
O fragmento narra uma situação em que um delegado usa um discurso autoritário e ameaçador contra um vizinho, tratando-o como estrangeiro e invocando hierarquias militares para intimidá-lo. A estrutura narrativa, porém, reserva uma reviravolta cômica: a esposa do homem desmonta o discurso do delegado usando a mesma lógica de poder hierárquico — e com credenciais ainda maiores. A pergunta final e humilde do delegado ("Da ativa, minha senhora?") funciona como o desfecho surpreendente típico de uma anedota, conferindo ao fragmento um tom anedótico: a narrativa se estrutura como uma história curta com reviravolta e efeito cômico, em que o intimidador acaba sendo intimidado.
As demais alternativas não correspondem ao efeito central do discurso. O texto não busca exaltar relações de poder estereotipadas — ao contrário, as subverte pela ironia da situação. O ponto de vista do narrador também não é ocultado; a estrutura narrativa deixa claro de qual lado a simpatia recai. A hostilidade das personagens não é o efeito produzido pelo discurso intimidador, mas sim o material que a narrativa usa para construir a cena cômica. E embora haja elementos xenofóbicos no texto, ironizá-los não é o principal efeito literário alcançado — o que define o fragmento é, antes, seu caráter de anedota bem-construída.
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