Questão 32 — ENEM 2021 (Linguagens)

Estojo escolar

Rio de Janeiro — Noite dessas, ciscando num desses canais a cabo, vi uns caras oferecendo maravilhas eletrônicas, bastava telefonar e eu receberia um notebook capaz de me ajudar a fabricar um navio, uma estação espacial.

[...] Como pretendo viajar esses dias, habilitei-me a comprar aquilo que os caras anunciavam como o top do top em matéria de computador portátil.

No sábado, recebi um embrulho complicado que necessitava de um manual de instruções para ser aberto. [...] De repente, como vem acontecendo nos últimos tempos, houve um corte na memória e vi diante de mim o meu primeiro estojo escolar. Tinha 5 anos e ia para o jardim de infância.

Era uma caixinha comprida, envernizada, com uma tampa que corria nas bordas do corpo principal. Dentro, arrumados em divisões, havia lápis coloridos, um apontador, uma lapiseira cromada, uma régua de 20 cm e uma borracha para apagar meus erros.

[...] Da caixinha vinha um cheiro gostoso, cheiro que nunca esqueci e que me tonteava de prazer. [...]

O notebook que agora abro é negro e, em matéria de cheiro, é abominável. Cheira vilmente a telefone celular, a cabine de avião, a aparelho de ultrassonografia onde outro dia uma moça veio ver como sou por dentro. Acho que piorei de estojo e de vida.

CONY, C. H. Crônicas para ler na escola. São Paulo: Objetiva, 2009 (adaptado).

No texto, há marcas da função da linguagem que nele predomina. Essas marcas são responsáveis por colocar em foco o(a)

Resolução

A questão avalia o conhecimento sobre as funções da linguagem, especificamente a identificação da função predominante em um texto e de seus elementos centrais.

A crônica de Carlos Heitor Cony é marcada pela subjetividade intensa do narrador: ele compartilha memórias afetivas, expressa emoções pessoais ("cheiro que nunca esqueci e que me tonteava de prazer") e emite julgamentos de valor ("Acho que piorei de estojo e de vida"). O uso da primeira pessoa, as exclamações implícitas e as opiniões pessoais são marcas da função emotiva ou expressiva da linguagem, que coloca em destaque o enunciador — aquele que fala — e sua atitude subjetiva diante do conteúdo narrado.

A alternativa que aponta para o enunciador expressando sua atitude em relação ao enunciado é, portanto, a correta, pois descreve com precisão a função emotiva.

As demais alternativas descrevem outras funções: a que foca a mensagem como objeto estético corresponde à função poética; a que foca o código remete à função metalinguística; a que prioriza as informações do contexto corresponde à função referencial; e a que coloca o interlocutor em foco descreve a função conativa.

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