Introdução a Alda
Dizem que ninguém mais a ama. Dizem que foi uma boa pessoa. Sua filha de doze anos não a visita nunca e talvez raramente se lembre dela. Puseram-na numa cidade triste de uniformes azuis e jalecos brancos, de onde não pode mais sair. Lá, todos gritam-lhe irritados, mal se aproxima, ou lhe batem, como se faz com sacos de areia para treinar os músculos.
Sei que para todos ela já não é, e ninguém lhe daria uma maçã cheirosa, bem vermelha. Mas não é verdade que alguém não a possa mais amar. Eu amo-a. Amo-a quando a vejo por trás das grades de um palácio, onde se refugiou princesa, chegada pelos caminhos da dor. Quando fora do reino sente o mundo de mil lanças, e selvagem prepara-se, posta no olhar. Amo-a quando criança brinca na areia sem medo. Uns pés descalços, uma mulher sem intenções. Cercada de mundo, às vezes sofrendo-o ainda.
CANÇADO, M. L. O sofredor do ver. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
Ao descrever uma mulher internada em um hospital psiquiátrico, o narrador compõe um quadro que expressa sua percepção
A questão avalia a capacidade de identificar o ponto de vista do narrador e o uso do lirismo como recurso expressivo na construção da percepção sobre uma realidade de exclusão social.
O narrador não descreve Alda de forma objetiva ou clínica. Ao contrário, ele a enxerga através de um olhar lírico e poético: o hospital psiquiátrico torna-se um palácio, Alda é uma princesa que chegou "pelos caminhos da dor", e o mundo externo é sentido como "mil lanças". Essa transformação imagética revela que a percepção do narrador está inteiramente mergulhada em uma visão poética do espaço de segregação — ele não descreve o que vê literalmente, mas o que sente ao ver.
A alternativa correta captura exatamente isso: a percepção do narrador é alimentada pela imersão lírica, ou seja, nutrida pelo olhar poético que recobre o ambiente de internação com imagens de nobreza, infância e beleza.
As demais alternativas não se sustentam: a ironia está ausente — o narrador é genuinamente amoroso; a resignação não aparece, pois ele resiste ao abandono coletivo com afeto; a mente humana como universo desconhecido não é o tema central; e a linguagem não busca lucidez racional, mas exatamente o oposto — uma expressão emocional e figurada.
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