A draga
A gente não sabia se aquela draga tinha nascido ali, no Porto, como um pé de árvore ou uma duna.
— E que fosse uma casa de peixes?
Meia dúzia de loucos e bêbados moravam dentro dela, enraizados em suas ferragens.
Dos viventes da draga era um o meu amigo Mário-pega-sapo.
[…]
Quando Mário morreu, um literato oficial, em necrológio caprichado, chamou-o de Mário-Captura-Sapo! Ai que dor!
Ao literato cujo fazia-lhe nojo a forma coloquial.
Queria captura em vez de pega para não macular (sic) a língua nacional lá dele…
[…]
Da velha draga
Abrigo de vagabundos e de bêbados, restaram as expressões: estar na draga, viver na draga por estar sem dinheiro, viver na miséria
Que ora ofereço ao filólogo Aurélio Buarque de Hollanda
Para que as registre em seus léxicos
Pois que o povo já as registrou.
BARROS, M. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1990 (fragmento).
Ao criticar o preciosismo linguístico do literato e ao sugerir a dicionarização de expressões locais, o poeta expressa uma concepção de língua que
Esta questão avalia a compreensão de variedades linguísticas e a visão de língua presente no poema de Manoel de Barros.
O poeta narra como um literato substituiu o apelido popular Mário-pega-sapo por Mário-Captura-Sapo para evitar o que chamava de manchar a língua — um exemplo claro de preconceito linguístico e preciosismo. Em seguida, o poeta vai além: sugere ao filólogo Aurélio Buarque de Holanda que registre em seus dicionários as expressões populares estar na draga e viver na draga, argumentando que "o povo já as registrou". Ou seja, a legitimidade da língua vem do uso coletivo, não de uma elite letrada.
A alternativa correta traduz exatamente isso: o poeta valoriza o uso de variedades populares, reconhecendo-as como legítimas e dignas de documentação formal.
As demais alternativas estão incorretas porque o texto não contrapõe escrita e fala como opostos, não ironiza quem fala fora da norma-padrão (ao contrário, defende esse uso), não propõe substituir regionalismos por registros formais — faz o oposto — e tampouco discute regras gramaticais.
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