Mas seu olhar verde, inconfundível, impressionante, iluminava com sua luz misteriosa as sombrias arcadas superciliares, que pareciam queimadas por ela, dizia logo a sua origem cruzada e decantada através das misérias e dos orgulhos de homens de aventura, contadores de histórias fantásticas, e de mulheres caladas e sofredoras, que acompanhavam os maridos e amantes através das matas intermináveis, expostas às febres, às feras, às cobras do sertão indecifrável, ameaçador e sem fim, que elas percorriam com a ambição única de um “pouso” onde pudessem viver, por alguns dias, a vida ilusória de família e de lar, sempre no encalço dos homens, enfebrados pela procura do ouro e do diamante.
PENNA, C. Fronteira. Rio de Janeiro: Tecnoprint, s/d.
Ao descrever os olhos de Maria Santa, o narrador estabelece correlações que refletem a
O trecho avalia a compreensão de recursos narrativos, especialmente o fluxo de consciência como técnica de caracterização indireta.
O narrador parte de um traço físico objetivo — os olhos verdes de Maria Santa — e, a partir dessa observação, desencadeia uma cadeia associativa que percorre gerações: homens aventureiros, mulheres silenciosas e sofredoras, travessias pelas matas, febre, feras, a busca interminável por ouro e diamante. Esse movimento revela que o corpo da personagem carrega e inscreve visualmente o sofrimento acumulado de seus antepassados, tornando os olhos uma espécie de janela para uma história coletiva de dor e resistência.
A alternativa correta identifica exatamente isso: os olhos funcionam como marca de antigos sofrimentos que emergem no discurso do narrador através de um fluxo associativo, sem linearidade rígida — característico do fluxo de consciência modernista.
As demais alternativas são incorretas porque: a mestiçagem é citada, mas como detalhe dentro de uma reflexão maior sobre sofrimento, não como foco principal; o enredo familiar de conquistas não condiz com o tom melancólico e de penúria do trecho; a relação conflituosa entre mulheres e maridos não é o centro — as mulheres acompanham, não se opõem; e a nostalgia de viver como os antepassados não está presente — o narrador descreve esse passado como marcado por privação, não como ideal desejado.
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