Assentamento
Zanza daqui
Zanza pra acolá
Fim de feira, periferia afora
A cidade não mora mais em mim
Francisco, Serafim
Vamos embora
Ver o capim
Ver o baobá
Vamos ver a campina quando flora
A piracema, rios contravim
Binho, Bel, Bia, Quim
Vamos embora
Quando eu morrer
Cansado de guerra
Morro de bem
Com a minha terra:
Cana, caqui
Inhame, abóbora
Onde só vento se semeava outrora
Amplidão, nação, sertão sem fim
Ó Manuel, Miguilim
Vamos embora
BUARQUE, C. As cidades. Rio de Janeiro: RCA, 1998 (fragmento).
Nesse texto, predomina a função poética da linguagem. Entretanto, a função emotiva pode ser identificada no verso:
A questão avalia o conhecimento sobre as funções da linguagem, especialmente a distinção entre a função poética e a função emotiva (ou expressiva).
A função emotiva é centrada no emissor da mensagem: ocorre quando o falante expressa seus sentimentos, emoções e estados subjetivos, geralmente com uso da primeira pessoa. Já a função poética é centrada na própria mensagem, valorizando o plano da expressão — ritmo, sonoridade, escolha e arranjo das palavras.
O verso "A cidade não mora mais em mim" é o único que manifesta claramente a função emotiva: o sujeito revela seu estado interior, sua ruptura afetiva com o espaço urbano, por meio de uma construção em primeira pessoa (em mim). A expressão é subjetiva e carregada de sentimento de pertencimento perdido.
Os outros versos exploram recursos poéticos — aliteração, imagens sensoriais, enumeração de elementos da natureza e do interior brasileiro — centrados na elaboração estética da linguagem, não na expressão do estado emocional do emissor. O verso "Ó Manuel, Miguilim", por exemplo, caracteriza a função conativa (apelativa), pois se dirige diretamente a interlocutores pelo vocativo.
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