Questão 26 — ENEM 2022 (Linguagens)

Assentamento

Zanza daqui

Zanza pra acolá

Fim de feira, periferia afora

A cidade não mora mais em mim

Francisco, Serafim

Vamos embora

Ver o capim

Ver o baobá

Vamos ver a campina quando flora

A piracema, rios contravim

Binho, Bel, Bia, Quim

Vamos embora

Quando eu morrer

Cansado de guerra

Morro de bem

Com a minha terra:

Cana, caqui

Inhame, abóbora

Onde só vento se semeava outrora

Amplidão, nação, sertão sem fim

Ó Manuel, Miguilim

Vamos embora

BUARQUE, C. As cidades. Rio de Janeiro: RCA, 1998 (fragmento).

Nesse texto, predomina a função poética da linguagem. Entretanto, a função emotiva pode ser identificada no verso:

Resolução

A questão avalia o conhecimento sobre as funções da linguagem, especialmente a distinção entre a função poética e a função emotiva (ou expressiva).

A função emotiva é centrada no emissor da mensagem: ocorre quando o falante expressa seus sentimentos, emoções e estados subjetivos, geralmente com uso da primeira pessoa. Já a função poética é centrada na própria mensagem, valorizando o plano da expressão — ritmo, sonoridade, escolha e arranjo das palavras.

O verso "A cidade não mora mais em mim" é o único que manifesta claramente a função emotiva: o sujeito revela seu estado interior, sua ruptura afetiva com o espaço urbano, por meio de uma construção em primeira pessoa (em mim). A expressão é subjetiva e carregada de sentimento de pertencimento perdido.

Os outros versos exploram recursos poéticos — aliteração, imagens sensoriais, enumeração de elementos da natureza e do interior brasileiro — centrados na elaboração estética da linguagem, não na expressão do estado emocional do emissor. O verso "Ó Manuel, Miguilim", por exemplo, caracteriza a função conativa (apelativa), pois se dirige diretamente a interlocutores pelo vocativo.

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