Questão 31 — ENEM 2022 (Linguagens)

Era o êxodo da seca de 1898. Uma ressurreição de cemitérios antigos — esqueletos redivivos, com o aspecto terroso e o fedor das covas podres.

Os fantasmas estropiados como que iam dançando, de tão trôpegos e trêmulos, num passo arrastado de quem leva as pernas, em vez de ser levado por elas. Andavam devagar, olhando para trás, como quem quer voltar. Não tinham pressa em chegar, porque não sabiam aonde iam. Expulsos de seu paraíso por espadas de fogo, iam, ao acaso, em descaminhos, no arrastão dos maus fados.

Fugiam do sol e o sol guiava-os nesse forçado nomadismo.

Adelgaçados na magreira cômica, cresciam, como se o vento os levantasse. E os braços afinados desciam-lhes aos joelhos, de mãos abanando.

Vinham escoteiros. Menos os hidrópicos — de ascite consecutiva à alimentação tóxica — com os fardos das barrigas alarmantes.

Não tinham sexo, nem idade, nem condição nenhuma. Eram os retirantes. Nada mais.

ALMEIDA, J. A. A bagaceira. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1978.

Os recursos composicionais que inserem a obra no chamado “Romance de 30” da literatura brasileira manifestam-se aqui no(a)

Resolução

A questão avalia o conhecimento sobre as características do Regionalismo de 30, movimento literário brasileiro marcado pelo engajamento social e pela representação crua das mazelas da população nordestina, especialmente no contexto das secas e da migração.

A obra A Bagaceira (1928), de José Américo de Almeida, é considerada precursora desse movimento. No trecho, o narrador descreve os retirantes da seca de 1898 com linguagem visceral e sem ornamentos sentimentais: compara-os a esqueletos redivivos, destaca o fedor, a deformidade física causada pela fome e pela doença, e culmina na desumanização total — "Não tinham sexo, nem idade, nem condição nenhuma. Eram os retirantes. Nada mais."

Esse retrato brutal e direto da realidade social é a marca central do Romance de 30: o texto não poetiza nem estetiza o sofrimento, mas o expõe com precisão quase documental, denunciando a tragédia humana através da descrição objetiva e impiedosa. Isso distingue o movimento do Romantismo (que idealizava) e do Parnasianismo (que cultuava a forma).

As demais alternativas não correspondem ao que o trecho demonstra: o espaço é geograficamente situado (sertão nordestino, seca de 1898), não há análise psicológica dos personagens (eles são descritos de fora, coletivamente), o narrador descreve sem discurso político explícito, e o tom é naturalista, não lírico-alegórico.

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