10 de maio
Fui na delegacia e falei com o tenente. Que homem amavel! Se eu soubesse que ele era tão amavel, eu teria ido na delegacia na primeira intimação. [...] O tenente interessou-se pela educação dos meus filhos. Disse-me que a favela é um ambiente propenso, que as pessoas tem mais possibilidade de delinquir do que tornar-se util a patria e ao país. Pensei: se ele sabe disto, porque não faz um relatorio e envia para os politicos? O senhor Janio Quadros, o Kubstchek e o Dr. Adhemar de Barros? Agora falar para mim, que sou uma pobre lixeira. Não posso resolver nem as minhas dificuldades.
... O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome tambem é professora.
Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças.
JESUS, C. M. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2014.
A partir da intimação recebida pelo filho de 9 anos, a autora faz uma reflexão em que transparece a
O trecho é do Quarto de Despejo, diário de Carolina Maria de Jesus, e avalia a habilidade de identificar recursos expressivos e posicionamento crítico em textos literários.
A narradora ouve o tenente discursar sobre como a favela é um ambiente que predispõe à delinquência. Em resposta, ela não aceita passivamente o discurso da autoridade: questiona internamente por que o tenente, sabendo disso, não envia um relatório aos políticos, em vez de comunicar o problema a ela, uma catadora pobre que nem suas próprias dificuldades consegue resolver. Ao final, afirma que a fome também é professora — sugerindo que a experiência da miséria confere uma sabedoria que o discurso oficial não reconhece.
Esse movimento de fingir concordância ou admiração e, em seguida, subverter o discurso com uma observação que expõe sua contradição ou inutilidade é o recurso da ironia. A autora valoriza a autoridade do tenente superficialmente, mas, ao refletir sobre para quem ele fala e o que espera que ela faça com a informação, revela o absurdo da situação e critica implicitamente a omissão do poder público.
As demais alternativas não se sustentam: o tenente não transmite uma lição aceita pela narradora; não há emocionalidade materna em destaque; a comunidade não exerce atividade política no trecho; e a narradora não expõe anseios íntimos, mas sim um posicionamento crítico e racional diante do discurso institucional.
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