Questão 58 — ENEM 2022 (Humanas)

TEXTO I

Em março de 1889, quando apareceram as primeiras romarias atraídas pelos milagres da beata Maria de Araújo, Juazeiro inseriu-se no rol da fundação do espaço religioso. Construía-se mais um centro, como Aparecida do Norte, Canindé ou Lourdes.

RAMOS, F. R. L. O meio do mundo: território sagrado em Juazeiro do Padre Cícero.

Fortaleza: Imprensa Universitária, 2014.

TEXTO II

Não sabemos ao certo quantas pessoas estavam presentes na capela no momento em que a hóstia sangrou na boca de Maria de Araújo. O Padre Cícero nos conta que o fato surpreendeu não só aos presentes, mas a própria beata parecia atordoada com o ocorrido. O fenômeno continuou acontecendo todas as quartas e sextas na Capela de Nossa Senhora das Dores a partir daquele dia. Os paninhos manchados do sangue que escorria da hóstia e da boca da beata, a princípio, ficaram sob a guarda do Padre Cícero, mas logo foram expostos à visitação pública e, além disso, o sangramento foi proclamado como milagre sem o conhecimento e sem a autorização do bispo diocesano.

NOBRE, E. Incêndios da alma. Rio de Janeiro: Multifoco, 2016 (adaptado).

As práticas religiosas mencionadas nos textos estão associadas, respectivamente, à:

Resolução

A questão avalia a capacidade de interpretar práticas religiosas a partir de dois textos que abordam o fenômeno de Juazeiro do Norte e o caso da beata Maria de Araújo.

O Texto I descreve como as romarias atraídas pelos milagres transformaram Juazeiro em um centro de devoção religiosa, comparando-o a Aparecida do Norte, Canindé e Lourdes — todos lugares que se tornaram sagrados por meio de fenômenos considerados miraculosos. Isso evidencia a criação de um lugar místico, um espaço geograficamente marcado pela sacralidade.

O Texto II narra o episódio da hóstia sangrando na boca da beata e a sua proclamação como milagre sem autorização do bispo diocesano. Essa dinâmica — devoção centrada em fenômenos físicos extraordinários, mediação de uma figura leiga (a beata) e autonomia em relação à hierarquia eclesiástica oficial — é característica do catolicismo popular, forma de vivência religiosa que incorpora elementos místicos e milagrosos fora do controle institucional da Igreja.

As demais alternativas estão incorretas por introduzirem conceitos que não correspondem ao conteúdo dos textos: não há abandono de espiritualidade, elementos judaizantes, expansão de fronteiras regionais, subjetivação do cristianismo medieval, bens simbólicos no sentido patrimonial, nem cerimônias ecumênicas.

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