Questão 14 — ENEM 2023 (Linguagens)

Dão Lalalão

Do povoado do Ão, ou dos sítios perto, alguém precisava urgente de querer vir por escutar a novela do rádio. Ouvia-a, aprendia-a, guardava na ideia, e, retornado ao Ão, no dia seguinte, a repetia a outros.

Assim estavam jantando, vinham os do povoado receber a nova parte da novela do rádio. Ouvir já tinham ouvido tudo, de uma vez, fugia da regra: falhara ali no Ão, na véspera, o caminhão de um comprador de galinhas e ovos, seo Abrãozinho Buristém, que carregava um rádio pequeno, de pilhas, armara um fio no arame da cerca... Mas queriam escutar outra vez, por confirmação. - "A estória é estável de boa, mal que acompridada: taca e não rende..." - explicava o Zuz ao Dalberto.

Soropita começou a recontar o capítulo da novela. Sem trabalho, se recordava das palavras, até com clareza - disso se admirava. Contava com prazer de demorar, encher a sala com o poder de outros altos personagens. Tomar a atenção de todos, pudesse contar aquilo noite adiante. Era preciso trazer luz, nem uns enxergavam mais os outros; quando alguém ria, ria de muito longe. O capítulo da novela estava terminando.

ROSA, J. G. Noites do sertão (Corpo de baile). São Paulo: Global, 2021.

Nesse trecho do conto, o gosto dos moradores do povoado por ouvir a novela de rádio recontada por Soropita deve-se ao(à)

Resolução

O trecho avalia a interpretação e compreensão de texto literário, especialmente a leitura atenta de elementos narrativos e comportamentos dos personagens.

No excerto, os moradores do Ão já haviam ouvido a novela por acaso (graças ao rádio do caminhão de seo Abrãozinho), mas queriam ouvir Soropita recontar. O narrador destaca que ele contava "com prazer de demorar, encher a sala com o poder de outros altos personagens" e conseguia "tomar a atenção de todos". Isso aponta para o modo particular e envolvente com que Soropita narrava — uma performance oral que ia além do simples relato dos fatos.

A alternativa correta é, portanto, a que aponta para o jeito singular de falar aos ouvintes: é o talento narrativo de Soropita, e não o conteúdo em si, que atrai as pessoas.

As demais alternativas não se sustentam no texto: a qualidade do som não é relevante, pois Soropita narra de viva voz; a busca por ineditismo é descartada porque todos já conheciam o capítulo; a dificuldade de compreensão não é mencionada; e a estabilidade do enredo é um elogio à novela em si, não à razão de ouvir Soropita novamente.

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