Questão 23 — ENEM 2023 (Linguagens)

TEXTO I

Zapeei os canais, como há dezenas de anos faço, e pá: parei num que exibia um episódio daquela velha família do futuro, Os Jetsons.

Nesse episódio em particular, a Jane Jetson, esposa do George, tratava de dirigir aquele veículo voador deles. Meu queixo foi caindo à medida que as piadinhas machistas sobre mulheres dirigirem foram se acumulando. Impressionante! Que futuro careta aqueles roteiristas imaginavam! Seriam incapazes de projetar algo melhor, e não apenas em termos de tecnologias, robôs e carros voadores? Será que nossa máxima visão de futuro só atinge as coisas, e jamais as pessoas? Como a Jane, uma mulher de 33 anos no desenho, poderia ser o que foram as minhas bisavós?

O futuro, naquele desenho, se esqueceu de ser melhor nas relações entre as pessoas. Aliás... tão parecido com a vida.

Fiquei de cara, como dizemos aqui, ou como dizíamos na minha adolescência, pobre adolescência, aprendendo, sem querer e sem muita defesa, um futuro tão besta quanto o passado.

RIBEIRO, A. E. Disponível em: www.rascunho.com br. Acesso em: 21 out. 2021 (adaptado).

TEXTO II

Masculino e feminino são campos escorregadios que só se definem por oposição, sempre incompleta, um do outro. São formações imaginárias que buscam produzir uma diferença radical e complementar onde só existem, de fato, mínimas diferenças. O resto é questão de estilo. Até pelo menos a segunda metade do século 19, o divisor de águas era claro: os homens ocupavam o espaço público. As mulheres tratavam da vida privada. Privada de quê? De visibilidade, diria Hannah Arendt. De visibilidade pública. Do que as mulheres estiveram privadas até o século 20 foi de presença pública manifesta não em imagem, mas em palavra. A palavra feminina, reservada ao espaço doméstico, não produzia diferença na vida social.

KHEL, M. R. Disponível em: https://alias.estadao.com.br.

Acesso em: 19 out. 2021 (adaptado).

A representação da mulher apresentada no Texto I pode ser explicada pelo Texto II no que diz respeito à(às)

Resolução

Esta questão avalia a habilidade de estabelecer relações entre textos, identificando como um texto explica ou fundamenta ideias presentes em outro — competência central de intertextualidade.

O Texto I narra o espanto da autora ao assistir Os Jetsons e perceber que o "futuro" imaginado pelos roteiristas reproduzia piadas machistas sobre mulheres ao volante. A crítica central é que a imaginação daqueles criadores era limitada: projetaram avanços tecnológicos, mas não conseguiram imaginar relações de gênero mais igualitárias.

O Texto II oferece a explicação teórica para esse fenômeno ao afirmar que masculino e feminino são formações imaginárias que a sociedade constrói e consolida ao longo do tempo, buscando produzir diferenças radicais onde existem apenas diferenças mínimas. Essas construções se cristalizam de tal modo que mesmo uma visão de futuro não consegue escapar delas.

A alternativa correta é, portanto, a que aponta exatamente essas construções imaginárias cristalizadas na sociedade: os estereótipos de gênero funcionam como estruturas mentais tão arraigadas que se reproduzem até nas projeções futuristas.

As demais alternativas são inadequadas porque: a ausência da mulher na vida pública é um dado histórico mencionado no Texto II, mas não é o que explica a representação mostrada no Texto I (a Jane aparece, mas de forma estereotipada); a ideia de limitações inerentes contradiz o argumento do Texto II, que afirma serem essas diferenças construídas, não naturais; e a censura à expressão feminina ou a dificuldade de atribuição de papéis não correspondem ao foco dos textos.

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